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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sobreviver, renascer


Como versejou Carlos Drummond de Andrade, a esperança sempre funciona no limite da exaustão, daí o ano novo ou qualquer outra celebração que traga em si a ideia de recomeçar. Esse é um dos poucos ritos que nossa sociedade iconoclasta preservou, o tal conceito da “virada”, que, aliás, dá nome às festas de final de ano.

O velho bordão “ano novo, vida nova” é usado por muitos como um mantra, uma expressão mágica com poderes para reinventar a realidade. Mas, no decorrer de janeiro se descobre que a montanha não se abriu ao grito de abracadabra. O ano não é novo, é velhíssimo (velhaco?), traz na cara falsa as cicatrizes de milênios; a sua voz repete, incessantemente: não há nada de novo debaixo do sol.

Por mais que desejemos, o calendário gregoriano – que fatia o tempo em anos, meses, dias e horas – não rege a experiência, não rege o tempo de que somos feitos. Os escravos do mercado e do consumo querem nos convencer a adorar os relógios e o que eles representam. Mas os poetas, ah, os poetas! Eles insistem que a vida não se submete aos calendários.

Paul Valery, poeta que sempre me ensina a sonhar, diz, da vida: “ela é esse movimento misterioso que, pelo desvio de tudo o que acontece, transforma-me incessantemente em mim mesmo”. Essa, sim, é mensagem que vale a pena transmitir.

O ano não se renova, é um conceito frio que se esgota na “folhinha” que marca os dias, cujo destino é o lixo. Mas, a vida é outra história. É coisa que nunca envelhece, pois jamais deixa de existir em estado embrionário, estado de promessa.

De nada adianta um ano supostamente novo, se a vida for velha. Daí o extraordinário preceito cristão do renascimento: quem não nascer de novo não pode entrar no reino de Deus. Peço licença poética à doutrina, para dizer que tampouco pode viver no reino dos homens, pois quem não se inventa de novo a cada manhã tem o destino das coisas que, por sua natureza, perecem e são descartadas.

Eu sei que as marcas do tempo me habitam. Sei que recomeçar é arte da imprecisão, é fruto da árvore do imprevisto. É o contraponto de viver em estado de fotografia, condenada ao mesmo ângulo, à mesma pose, à segurança da mesmice.

Por isso, não importa a minha idade, sou uma criança de peito, acabo de nascer. Aconchegada ao seio da vida, sou sobrevivente do ano que se acabou, fui replantada em 2013 e tenho a esperança de envelhe(SER).

E vocês, leitores, sobreviveram? Se a resposta for sim, feliz você novo!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A máquina do mundo entreaberta

L'Art Machine, de Jonathan Talbot

Empresto de Carlos Drummond de Andrade o verso que dá título a essa crônica, relembrando que, em 2000, a Máquina do Mundo foi eleito o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Bem, com essa afirmação tão definitiva não concordo, penso que nem Drummond concordaria, já que coloca ponto final na possibilidade criativa de todos os poetas contemporâneos e dos que virão.
Lembrei-me dos versos, e do poema, ao ouvir a frase mais triste que alguém pode dizer, e que está se tornando corriqueira: nada mais me surpreende. Dita por uma pessoa jovem, a frase se revela mais chocante, pois expõe amargura e decepção em relação à vida
Se um defunto falasse, ele sim estaria autorizado a emitir essa contundente declaração, verdadeira apenas para quem já interpretou a última cena e viu a cortina do teatro fechar-se para sempre. Mas, para qualquer um que siga entre os vivos, a máquina do mundo - metáfora da experiência e do devir – permanece entreaberta.
A decisão de aceitar ou não a oferta da máquina nos pertence. Ou optamos por olhar a vida com olhos recém-nascidos, ou adotamos os óculos da indiferença, a capa das pseudocertezas e seguimos a jornada, afirmando que nada mais nos surpreende. 
No poema citado, a postura do eu - poético de Drummond é a do desengano; suas “pupilas gastas” não são afetadas pela beleza, suas “mãos pensas” já não são suficientes para comportar mais conhecimento. E, aqui, nos ilumina o segredo do poema: Drummond falava dos homens de seu tempo, homens que abortaram qualquer possibilidade de surpreender-se, preferindo a “treva mais estrita de uma estrada pedregosa”. 
Oro para que jamais chegue o dia em que me falte o espanto essencial. Peço que minhas pupilas sejam afiadas diariamente pela luz da beleza que extravasa da cena mais banal, pela delicadeza dos gestos mais corriqueiros, pelos cães vira-latas e pelas cores desprezadas das flores que brotam espontaneamente. 
Não surpreender-se é abrir mão da humanidade. É ignorar que o próprio Deus, para alentar a chama da Sua esperança no homem que criou, embrulha surpresas e alegrias no mais sensível pacote que alguém pode receber: o corpinho de um bebê. 
O caminho é de pedras, a hora é a hora do medo, os seres humanos continuam tão desumanos como sempre. Se nem o bem, tampouco o mal já nos surpreendem, então já não é possível sonhar mudanças. 
Mas, se em algum lugar do planeta há alguém boquiaberto diante da máquina do mundo entreaberta, viva! Talvez, nem tudo esteja perdido, diante da surpresa e do imprevisto, vamos responder com a “esperança mais mínima — esse anelo/de ver desvanecida a treva espessa/ que entre os raios do sol inda se filtra...”

Sandra Baldessin

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Aprendizagem da Alegria


          
Fonte: www.esmas.com

          Alegria. Essa talvez seja a mais bela palavra registrada no dicionário. Mas a plenitude do seu significado só pode ser traduzida por um poema, pela risada sonora de uma criança, pela delícia do vento, dedilhando uma canção na folhagem das árvores.
Mas, é, também, algo cada vez mais raro em nossa sociedade. Isso porque o estilo de vida consumista que adotamos tem comprometido a nossa capacidade de senti-la. As coisas simples, amigas da alegria, já não nos cativam. O que atiça o nosso desejo tem preço, mas não tem poder para nos manter satisfeitos.
Aliás, a função da sociedade de consumo e do mercado é manter-nos em estado de permanente insatisfação, oferecendo pequenas doses de prazer, contidas em objetos que prometem e não cumprem. Fica sempre faltando alguma coisa.
E falta mesmo, porque a alegria não cabe nas sacolas das lojas de grife, a alegria não se sujeita à última moda, nem faz parceria com os prazeres que nos consomem, enquanto, tolos, acreditamos que nós é que estamos desfrutando deles.
Vale lembrar, ainda, que o vício do prazer bloqueia o caminho de acesso à alegria, já que são experiências completamente diferenciadas. O prazer é bicho exigente, que vive com a boca escancarada, pedindo mais. A alegria, ao contrário, é a flor da completude, seu perfume e beleza preenchem de tal forma o coração humano que tornam supérfluos quaisquer complementos.
O escritor alemão, Goethe, disse que tanto o desgosto como a alegria dependem mais do que somos do que daquilo que nos acontece. Concordo com ele, pois tenho conhecido pessoas que vivem situações de extrema adversidade sem, contudo, perder o dom de alegrar-se.
A alegria é aliada da vida e da fé, como testemunha uma das mais belas páginas literárias contidas no Velho Testamento, no livro de Neemias: “A alegria do Senhor é a nossa força”.
Além disso, a alegria não nos obriga a excessos, não nos fere como o prazer do consumo, que, junto com a satisfação de adquirir um objeto, nos presenteia com a tristeza de abrir mão de outros tantos.
A mera satisfação momentânea, e dependente das circunstâncias, não passa de alegria pirateada, e falsifica a nossa potência de existir. É preciso reaprender a alegria, já que não queremos uma experiência de vida made in china.
Embora se diga que alguns nascem com vocação para a alegria, também é verdade que se trata de um afeto passível de ser aprendido. Que a aprendizagem da alegria se torne uma possibilidade.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A mirada sensível

Murilo Mendes, o poeta mineiro, falava da necessidade de ter o olho armado para a vida, fator indispensável para a sobrevivência. E o que seria esse olho armado?

Não é coisa restrita aos poetas e fazedores de arte. É algo com que nascemos, e, ao longo da jornada, permitimos que se perca. É a mirada profunda de quem deseja ver além da superfície polida das coisas.

Ao mesmo tempo em que muitos perdem esse olhar que inaugura o mundo a cada manhã, outros procuram cultivá-lo. Aqueles que apuram o paladar do olho, ensinando-o a procurar sabores inusitados nas banalidades cotidianas, certamente terão uma vida mais rica, mais intensa.

            A história humana revela que o tédio e o apetite insaciável por novidades não são coisas inventadas recentemente. Tampouco a depressão que se segue quando se torna impossível satisfazer essa fome.  Nesse momento, muitos recorrem às drogas, lícitas ou ilícitas, em busca de ampliar sensações.

Nunca antes essa fragilidade da psique esteve tão patente. Crianças, jovens e adultos sofrem de uma espécie de depressão dos sentidos. Falta o olho armado. Falta perceber, como quer a também poeta  Adélia Prado, que “a beleza é viva e te olha, chama pelo nome ao que a procura”. Quantos de nós estamos atentos para ouvir esse chamado?

Os cientistas chegaram à conclusão que a observação humana é única, própria de cada ser. O nosso jeito de olhar é como se fosse uma assinatura, uma forma só nossa de percepcionar o mundo. Há muito tempo os poetas já sabiam disso.

Somos seres colocados à imensa janela do mundo, convidados a olhar a paisagem. Para evitar a depressão dos sentidos é fundamental cultivar a mirada. Não é tarefa fácil, pois desaprendemos as coisas fundamentais para gravar na memória as supérfluas.

Abrimos mão da simplicidade e, por isso, quando a beleza nos fita, seja através da natureza, seja através do homem, muitas vezes a ignoramos, perdemos o momento mágico de epifania.

Há coisas que precisamos reaprender; como dizem os versos de Fernando Pessoa, precisamos raspar a tinta com que os nossos sentidos foram pintados. Precisamos de um olhar que ressignifique a natureza e as relações entre os homens.

Cultivar um olhar sensível é, talvez, uma das poucas vias de resistência ao consumismo, à singularidade que resiste aos padrões de beleza massificados e à própria falência do humano.


Sandra Baldessin


(Publicado originalmente no Jornal Cidade de Rio Claro)

domingo, 28 de setembro de 2008

Poesia e a dimensão erótica da vida

Rating:★★★★★
Category:Other
Platão, o filósofo grego, explica que o nome anthropos (homem) significa “aquele que contempla o que vê”. Contemplar é extrair daquilo que é visto algo que está além do objeto: encontrar um sentido. O fascínio do poema, sua sedução, reside, justamente, na possibilidade de criar e/ou encontrar esse sentido.
Se, de um lado, temos o homem faminto por sentido e, do outro, há o poema que se abre ao desejo desse homem, fica patente o poder erótico da poesia. E, aqui, não cabe falar em poemas eróticos, pois não há poesia que não seja erótica.
O ritual erótico que resulta no poema começa com a paixão do poeta pela palavra, pelo desejo que permeia sua relação com a linguagem. Só o poema pode revelar toda a sensualidade de um idioma. Só a Poesia possui as palavras com tamanha ânsia, a ponto de arrancá-las ao controle da sintaxe, desnudá-las da roupagem da gramática e conduzi-las, num crescendo, ao gozo inevitável: o poema.
Toda poesia que mereça esta designação é erótica, no sentido de que nasce da pulsão por expressar o inominável, que, por sua intensidade, é efêmero como os sentidos pressentidos no poema, como a própria paixão.
A poesia é sempre erótica, pois o poema – entidade resultante da orgia entre o poeta e a palavra – é como o corpo que surge no momento da cópula, um outro corpo que não pertence a nenhum dos amantes, existe apenas no breve intervalo do êxtase.
Não se trata de o poema ter ‘conteúdo erótico’, mas de que sua fala se articula a partir de uma dimensão erótica presente no poeta e, mais tarde, no leitor.
Discute-se muito a carência de público leitor para a poesia. Tenho cá minhas teorias sobre isso: embora vivamos numa sociedade extremamente erotizada, tememos assumir nossa dimensão erótica, que não se sujeita à sintaxe desumanizante de quaisquer moralismos. Por isso, a grande maioria das pessoas não é capturada pela sedução do poema, por sua carne latejante e plena de sentidos que estão além da superfície porosa das palavras.
Encerro essa divagação com um poema de minha autoria que, espero, diga mais que que toda essa prosa:

Psicopoema

encerrado no hospício
das palavras o
poeta
remexe as entranhas
do seu mais íntimo
dicionário
busca o verso
no caldo químico dos
próprios hormônios e
reencontra a si mesmo
na plenitude orgásmica
do poema

Sandra Baldessin



Imagem: Poema Visual de minha autoria, que integra a exposição Flux 2008.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pra que tantas bibliotecas?

Category:   Other/General

Pois é, deve ter sido essa a pergunta que o prefeito de São Paulo, Gilberto kassab (DEM) fez a si mesmo, ou aos seus "aspones", antes de assinar o decreto 49.172, que extinguiu quatro tradicionais bibliotecas públicas, presentes na capital do estado. Nesse triste obituário constam os seguintes nomes:

- Biblioteca Infanto-juvenil Chácara do Castelo, transformada em Centro de Conservação de Acervo; atenção: é pra conservar, não pra democratizar.
- Biblioteca Infanto-juvenil Arnaldo de Magalhães Giácomo, que, com uma só canetada, virou Centro de Apoio Educacional: engraçado, não é para isso mesmo que servem as bibliotecas?
- Biblioteca Infanto-Juvenil Zalina Rolim, num passe de mágica político virou Casa de Cultura e Convívio da Vila Mariana: ora, desde quando biblioteca não é, justamente, casa de cultura e convívio com os melhores amigos dos homens, os livros?
- Biblioteca Infanto-Juvenil Cecília Meireles (a poeta deve estar se revirando na tumba), transformada em Centro de Memória e Convívio da Lapa.

Num país com mais de 40 milhões de analfabetos funcionais, o Kassab deve ter achado coerente fechar bibliotecas! No Brasil, temos apenas 4.800 bibliotecas para uma população de 170 milhões. Isso significa que há uma só biblioteca para cada 35.000 pessoas.
Pra entender melhor o que esses números representam, basta dizer que, na França, são 24.000 bibliotecas para 60 milhões de habitantes. Bem, por isso eles deram ao mundo Morin, Deleuze, Sartre, Foucault, Bachelard, Lyotard, Lévy, e... Podem acreditar, essa lista é imensa!
Para quem gosta de matemática, a proporção de bibliotecas no Brasil, em relação à França, é de 1/14 (7,01%). Essa conta também mostra outra discrepância: são 5.507 municípios no país, o que significa que tem muita gente sem acesso, a "galera dos sem-livro".

Kassab justificou a canetada afirmando que "não havia público" para essas bibliotecas. Ora, pra bom entendedor, um pingo é letra. Não tem público, pois toda retórica do projeto "São Paulo, um estado de leitores", criado no governo de Geraldo Alkmin, de quem Kassab era vice, não passou disso mesmo: retórica para justificar os gastos com propaganda institucional. Se o programa tivesse funcionado, não assistiríamos, agora, ao velório das bibliotecas!

Sandra R. S. Baldessin



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Balanço de leitura

 

No início de um novo ano é comum ouvirmos o termo “balanço”, referente às análises sobre o desempenho financeiro das empresas e do comércio. A idéia desse artigo se desencadeou exatamente por conta da palavra balanço que, para mim, evoca os poemas do livro de Drummond: “Cadeira de Balanço”. Assim, oscilando entre o poético e o analítico, resolvi fazer um “balanço” das leituras realizadas em 2007.

 

Não tenho dúvidas em afirmar que, o melhor saldo de 2007 foi a descoberta da poesia de Nauro Machado, poeta vigoroso cuja obra merece ser mais divulgada por esses brasis. De Nauro, destaco o poema A Rocha e a Rosca, considerado por Ricardo Leão, teórico da literatura, como o “discurso épico do ser”. Eis um fragmento: “Na eternidade eu me duro:/me aniversario presente,/ para sempre a sós, no escuro,/ de mim próprio a semente,/ sem passado e sem futuro,/ para sempre, por ausente.”

 

Cito, dentre os melhores, o livro da amiga portuguesa Amélia Pinto Pais: “Fernando Pessoa: o menino de sua mãe”, ainda inédito no Brasil. Livro que revela a constância do amor da leitora por seu poeta do coração e seu desejo de ampliar os horizontes desse amor, transmitindo-o às crianças e adolescentes. Uma obra de rara delicadeza, na qual a autora assume a voz do poeta infante e conta sua história. Do livro de Amélia destaco o trecho final da carta endereçada ao poeta: “Está aqui, entre seus amigos, unidos pela língua que foi sua pátria, amigos seus que tantas alegrias lhe devem – e que lhe querem muito bem -, agradecendo-lhe por ter existido e se ter outrado, múltiplo e plural como o universo!”

 

Já no final de 2007, o Gil Uryn, amigo querido, presenteou-me com “A alma imoral”, do rabino Nilton Bonder. Prosa instigante que ressignifica os conceitos de corpo e alma, enquanto discute a temática da traição. Espero que o excerto “abra o apetite” pela leitura: “Resta uma pergunta: se aquilo que é intrinsecamente correto pode assumir o status de um equívoco, seria possível imaginar situações sociais em que o intrinsecamente equivocado pudesse ser levado à condição de acerto?” Vale procurar a resposta no livro.

 

Duas releituras estão inclusas neste balancete: “O cavaleiro inexistente”, de Ítalo Calvino, e ”Secreta Mirada”, de Lya Luft.

A novela de Calvino é indispensável para os apreciadores da narrativa surreal. A releitura conduziu-me a entender melhor o quanto é viável existirmos pelas palavras, à margem da expressão corporal (vide o sucesso do chamado sexo virtual!). Atenção para o fragmento, que retrata o próprio ato da escrita: “Começa-se a escrever com gana, porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre num uma gota de vida, e a vida está toda fora ... fora de você...e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo...”

 

 “Secreta Mirada”, por sua vez, resgata em mim o amor por Lya Luft, recordando-me que ela já foi bem maior do que seus últimos livros, desviantes, no contexto de usa obra literária. Ou, quem sabe, trata-se apenas do velho sentimento de sentir-se traída. A beleza desses versos redime qualquer mágoa: “talvez haja um amor me inventando,/ mas tão vago, nem roça/ as beiras da minha praia, concha breve/ e encolhida, não vou desenrolar/ o meu abraço. Quando achei que era tempo, não era:/ talvez este ondular entre meus ramos/ venha de alguma alheia primavera.”

 

Resultado do balanço: a leitura me embala, no aconchego das suas misteriosas engrenagens.

 

Sandra Baldessin

 

Imagem: La Lecture, de Pablo Picasso. Escaneado da Revista Mente e Cérebro, dez. 2006.

domingo, 30 de dezembro de 2007

O imutável e o inacessível

As duas assombrosas palavras que aparecem juntas no título desse artigo podem dar a impressão de que vou meter a minha colher de noviça na compota dos iniciados. A coisa toda é muito mais prosaica; trata-se, apenas, do efeito colateral de olhar-se ao espelho para modelar as sobrancelhas.

Pode acontecer de, repentinamente, nos determos para uma mirada mais atenta nos próprios olhos. Ato perigoso, principalmente nessa fase de transição entre um ano que se despede e outro que se aproxima.

Nos olhos que miravam os meus, descobri sem surpresa, presentificavam-se todas as minhas versões: a menina, a jovem, a mulher. E, espreitando, nas sombras, as imagens que ainda terei. Na linha contínua do tempo, passado, presente e futuro enlaçados numa dança ininterrupta refletida no brilho do olhar.

Foi nesse momento que elas surgiram: as palavras imutável e inacessível. A velha e boa rotina de olhar-se ao espelho para tirar as sobrancelhas, se for dezembro e véspera do Ano-novo, pode nos transformar em filósofos de meia-tigela.

Enquanto observava a menina que fui, atinei que o passado pertence ao reino do imutável. Ao domínio das coisas que, para o bem e para o mal, permanecerão cristalizadas no tempo. Grande sabedoria a dos antigos: o passado é da ordem do leite derramado, sobre o qual não adianta chorar, nem pra lamentar o que era doce e se acabou, tampouco para trazer ao paladar o ressaibo de amarguras não metabolizadas.

Já o futuro, imagens que ainda não se delineiam no espelho, pertence ao reino do inacessível. O futuro é da ordem da incerteza, da beleza ou da dor que se revelarão somente quando o amanhã desembrulhar-se hoje.

Assim, somos o que somos nesse intervalo concreto entre o passado e o futuro, ao qual damos o nome de agora. O resto é o mistério que nos atrai e seduz, feito o passarinho enfeitiçado pela cobra. E, tenho certeza, a vida perderia muito do seu encanto se desvendássemos a receita do tal feitiço.

Já disse o poeta, na canção: são muitos os perigos dessa vida. Os piores, dentre eles, é não desvincular-se do imutável e viver angustiado pelo inacessível.

2008 se avizinha, trazendo em sua esteira o agora, o presente: único canteiro de obras possível para nos construirmos seres mais humanos. Mais uma oportunidade concreta para aprendermos a estar no mundo, de forma criativa, com todos os outros seres.

Que 2008 nos atraia e seduza, com todos os seus perigos e suas promessas. São os votos dessa filósofa de meia-tigela, mas que, pelo menos, sabe modelar as sobrancelhas.

 

Sandra B.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Resenhando Vivências

Rating:★★★★★
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Artes da existência – em busca de uma vivência sensual

“Artes da existência” é a denominação que a antiga civilização greco-romana dava ao conjunto de conhecimentos sobre a sexualidade humana, e que foram brilhantemente analisadas pelo filósofo francês Michel Foucault em sua obra História da Sexualidade II.
É interessante observar que esses conhecimentos eram permeados por conceitos estéticos; o termo ‘estético’, aqui, não aparece limitado pela definição mais comum que assumiu no mundo contemporâneo, mas, no seu sentido mais profundo – apreensão estética, estesia (aisthesis, do grego) - ou seja, a capacidade que um sujeito possui de apreender certa realidade exterior de modo sensitivo e sensual, através do uso pleno dos seus sentidos.
A estesia antagoniza a anestesia; assim, estar estésico é abrir-se às sensações, deixar-se provocar. Quando pensamos a sexualidade dessa forma podemos entendê-la, realmente, como Arte. E, enquanto arte, o sexo tem o poder de reencantar a realidade apreendida, produzindo uma espécie de êxtase que perturba, no sentido que modifica, os significados do cotidiano. Seguindo esse raciocínio acerca da estesia e suas relações com a sexualidade, tenho observado que, de modo geral, a maioria das pessoas não procura uma vivência sensorial, relegando a sensualidade exclusivamente à vida sexual, e pior, ao momento do êxtase. Somos seres potencialmente sensuais, isto é, seres que têm à disposição o enorme potencial de um sistema sensitivo muito sofisticado e quase inexplorado. Se não desfrutarmos amplamente desta sensorialidade, nas mínimas coisas cotidianas, não atingiremos o ideal do sexo enquanto Arte, permanecendo aquém dessa possibilidade.
São muitos os fatores que nos impedem de desfrutar uma vivência mais sensual; o mais poderoso, claro, é o condicionante cultural que pretende as sensações ligadas ao corpo e aos sentidos como de somenos importância. Este condicionante domina todas as áreas da vida, roubando o caráter sensorial das nossas várias experiências: a educação já não é sensível, o jogo já não é lúdico e nossa convivência social é cada vez mais asséptica. Segundo essa lógica, até mesmo o sexo está perdendo o seu caráter sensual, pois, sensualidade nada mais é do que a capacidade de viver em estesia.
O corpo que sente é uma entidade aberta, incompleta, que só se complementa nas coisas, no mundo, no outro.
Os versos sensoriais de Pablo Neruda expressam perfeitamente essa realidade: “Eu era a sede e a fome, e tu foste a fruta.”

Sandra B.

imagem disponível em: www.lamolina.edu.pe
Esse texto foi publicado originalmente no sítio: www.gehspace.com

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Excesso de realidade



A última coisa que poderíamos afirmar sobre os reality shows, do tipo BBB e outros que estão infestando a programação das redes de tevê mundiais, é que apresentam um excesso de realidade. Certo?


            Errado. Tomando como exemplo o BBB, embora saibamos que as ações e reações são muito bem articuladas para dar a impressão de espontaneidade, além da manipulação cada vez mais explícita da opinião pública, através da edição, sob um aspecto fundamental o BBB apresenta sim um excesso de realidade.


            Oculta sob a capa de diversão medíocre, o BBB valida os ideais perversos que norteiam a forma dominante de convivência nas sociedades contemporâneas: a competição. Já é questionável que a competitividade seja aclamada como a melhor qualidade que um ser humano possa ter. Sem maiores reflexões, muitos formadores de opinião, sem falar em pais e professores, estimulam o comportamento competitivo reafirmando a visão do mundo como um campo de batalhas onde sempre haverá vencedores e perdedores, sendo a medida do triunfo exatamente a mesma do BBB: o sucesso financeiro.


            No Big BrotherBrasil, para atingir a meta e ganhar um milhão de reais todas as estratégias (ou seria melhor dizer artimanhas?) são incentivadas e válidas. É preciso seduzir e conquistar supostos amigos que, ocasionalmente, serão descartados porque já não servirão ao interesse supremo. É preciso escolher os amigos certos, aqueles que têm popularidade, que podem contribuir para impulsionar a sua própria trajetória. O lema essencial se traduz por: não confie em ninguém. Parece familiar?


            Às vezes, me fica a impressão de que não sabemos o que estamos produzindo, como sociedade, quando louvamos e estimulamos estes comportamentos; quando não reprovamos explicitamente os atos de “passar a perna nos outros” ou “puxar o tapete” dos parceiros. E, depois, ficamos horrorizados com as reportagens de jornais e tevês que dão conta do número crescente de jovens ingressando na criminalidade ou na prostituição, como “método” alternativo para atingir o tal sucesso financeiro. Ah, mas esses são os “outros”, não tem nada a ver conosco, nós temos princípios!


            O imaginário coletivo está impregnado pela lógica do mercado: produzir, consumir, dominar. Este é o princípio gerador das mais destrutivas forças responsáveis pela devastação ecológica, pela violência, pela miséria. Forças que não sabemos como conter.


            Se continuarmos encorajando este modelo de convivência, que o BBB reflete perfeitamente, não obteremos resultados com as campanhas pela cultura da paz, pelo desarmamento, pelo despertar da consciência ecológica, pelo fim do trabalho infantil, etc. Estamos tentando fechar a porta depois que o ladrão já entrou.


            Existem muitos modos de olhar para esse laboratório social que é o BBB. Para além da mirada superficial, quem sabe permitiremos que este excesso de realidade gere em nós uma grande inquietação, ilumine as nossas consciências, antes que sejamos, todos, mandados para o paredão. 


 


Sandra B.


 


imagem: "Realidad" - Disponível em www.margencero.com


 

sábado, 21 de janeiro de 2006

Devagar e sempre...


Devagar se vai ao longe. Quem se lembra dessa expressão? Lembro-me de tê-la ouvido muitas vezes, quando criança. Na contemporaneidade esse ditado soa falso, pois estamos cada vez mais habituados a confundir velocidade com eficiência. A velocidade tornou-se um diferencial de qualidade, símbolo da tecnovida (se me permitem o neologismo) e deusa da sociedade consumista, que deseja tudo “pra ontem”.


Ficou na lembrança o tempo remoto em que era possível pautar a vida pelas necessidades: comer quando se tinha fome, dormir quando nos sentíamos cansados. Coisas tão banais para os nossos antepassados, mas, hoje, são privilégios reservados apenas aos bebês, pois mesmo crianças bem pequenas já estão sujeitas à tirania da velocidade.


É estranho pensar que as novas tecnologias planejadas para poupar o nosso tempo como transportes, telefonia, computadores e internet que colocam o mundo à distância de um clique, só fizeram com que pisássemos mais fundo no acelerador: a pressa e a urgência determinam a nossa vida e, supostamente, a nossa competência.


Perdemos a noção do passar do tempo e, entre o estar e o partir não há mais do que míseros nanossegundos. O filme da nossa vida está passando cada vez mais rápido e não demora muito o inevitável “The End” colocará um ponto final numa existência que tem tudo para ser rica e significativa.


Quase sempre a pressa é inimiga da memória, da tradição, portanto, além de nos matar também destrói a nossa herança cultural; afinal, para quê sentar em círculo e relembrar lendas familiares ou fatos históricos se podemos inserir um dvd no aparelho e deixar as crianças entretidas nas horas vagas, enquanto poupamos nosso precioso tempo?


O ano 2005 chegou ao final e quantos não afirmaram que nem o viram passar? Felizmente, eu vivi 2005. Ficou marcado nos bons livros que li como “Devagar”, de Carl Honoré, que nos ensina os princípios da filosofia do devagar; nos filmes que revi como Persona, obra prima de Bergman (que perdulária! Perdendo tempo vendo reprises de filmes antigos!); nos momentos de reflexão que precedem a escrita; nas risadas em companhia dos amigos; nas caminhadas pelas ruas da minha cidade, onde cada vez mais me reconheço. Para mim, 2005 não “passou batido”.


Não estou discursando contra a tecnologia e o progresso, tampouco fazendo a apologia da preguiça, apenas, gostaria que refletíssemos que, no fim das contas, tempo vale muito mais do que dinheiro, simplesmente porque não tem preço. A maior fortuna do mundo não compraria um segundo a mais de vida que me permitisse vislumbrar um último pôr-do-sol na Praça da Liberdade* que, hoje não, não tenho tempo de olhar...


 


Sandra B.


 


* Praça da Liberdade - logradouro público localizado na cidade de Rio Claro/SP, lugar de vivências afetivas...

sábado, 5 de novembro de 2005

"Aquilo que ainda pode ser salvo"

Rating:★★★★★
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A análise dos vínculos entre Literatura e Sociedade, ou a atribuição de uma função social à Literatura é tema de um sem número de pesquisas. Entre aqueles que defendem que toda obra literária deve obrigatoriamente cumprir um papel social, e a outra corrente de pensamento que entende a obra literária como algo absoluto, que existe em si e por si, não tendo compromisso algum além da estética (estesia), inclino-me a engrossar as fileiras do segundo grupo, sem fanatismos.
Uso a expressão ‘sem fanatismos’, pois, é óbvio que há uma extensa zona de intersecção entre literatura e sociedade; a obra literária (a obra de arte, de modo geral) sofre influência do meio social e o influencia, sendo esse um processo de intervenção dinâmico.
Sempre que tenho oportunidade de participar de seminários que discutem o tema, procuro defender a idéia que o saber gerado pela literatura contribui para a sobrevivência de uma identidade social que se constrói como narrativa; esse saber tece imagens, ora inusitadas, ora familiares, à procura de manifestar o real, que se torna tão mais intenso quanto maior for o estranhamento produzido pelo fato literário.
Não que a obra literária tenha essa responsabilidade ou qualquer outra obrigação (como querem alguns), mas, porque está no seu ‘caráter humano’ já que é produzida por homens.
Quando falo em manifestar o real, refiro-me a determinados ângulos da realidade captados pelo olhar do autor, filtrados pelo seu próprio ideário cultural, sua percepção sensorial e afetiva, e, finalmente, transformados por ele em escritura. Aqui, é preciso cuidado para não ser reducionista: a obra literária não é um mero produto da incorporação de realidades apreendidas ou inventadas.
Através do contato com a escritura de Marcuse tenho compreendido melhor a zona fronteiriça e, portanto, conflitante, entre Literatura e Sociedade. Segundo ele: “A verdade da Arte reside no poder de romper o monopólio da realidade estabelecida (isto é, daqueles que a estabeleceram) para definir aquilo que é real”. As grandes obras da pobremente denominada “literatura de engajamento social”, como “Vidas Secas”, por exemplo, são grandes porque exerceram plenamente esse poder, e não porque cumpriram uma suposta função.
Transpondo o pensamento de Marcuse para esse território, compreendo que a obra de arte literária não se compromete com a questão social, mas, a sua energia estésica pode sim, como quer Marcuse “se tornar uma denúncia [e também] a celebração daquilo que resiste à injustiça e ao terror, e daquilo que pode ainda ser salvo”.


imagem: capa do livro de Marcuse: "Eros and Civilization"

sábado, 29 de outubro de 2005

Dia Nacional do Livro

Rating:★★★★★
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Hoje é o Dia Nacional do Livro. Uma data que deveria ser comemorada de forma abrangente, envolvendo profissionais de todas as áreas. Sim, pois os livros são ferramentas de disseminação do conhecimento sob suas mais variadas formas.
Se a escritura surge como um meio de transmissão da informação, a leitura se configura como a mediadora da aquisição dessa mesma informação, do conhecimento. Nesse caso, a leitura é um ato social, e, como tal, é uma questão pública das mais importantes.
Falar em livros é falar em leitura e leitores. Quando pensamos na origem da palavra ler, temos, no grego, a expressão legei, significando colher, recolher, juntar; a palavra em latim foi grafada como lego, legis, legere, cujo sentido exprime a plenitude da leitura: juntar as coisas com o olhar. Nada mais verdadeiro!
Gostaria que hoje, no Dia Nacional do Livro, tivéssemos motivos para celebração, mas, o que não nos faltam são motivos para reflexão. No Brasil há pelo menos 35 milhões de analfabetos funcionais, pessoas para as quais o livro não faz sentido; há, ainda, muitos outros que não tem acesso ao livro, à informação escrita, conforme pode ser observado pela distribuição regional das bibliotecas públicas no país: 21% na região sul; 10% na região centro-oeste; 39% na região sudeste; e 30% na região norte e nordeste. Bibliotecas públicas conectadas à internet só aparecem nas regiões Sul e Sudeste. Dentre essas bibliotecas, é preciso ressaltar, a grande maioria não tem o acervo atualizado, sobrevivem em condições precárias, mantidas por orçamentos ridículos. Fazendo as contas, no Brasil há apenas uma biblioteca deficiente para cada 36.000 brasileiros!
Particularmente, já não acredito que haja interesse do governo em reverter essa situação; relembro as campanhas que vêm sendo realizadas, desde o governo Fernando Henrique até a atual Fome de Livro (com a pretensão de implantar um milhão de bibliotecas públicas até 2006) e observo que, efetivamente, nada mudou.
Teimo em ter esperança. Formar leitores é uma espécie de discipulado. Quem sabe, se cada leitor apaixonado chamasse a si a tarefa de motivar e formar outro leitor através da sua própria vivência em leitura não obtivéssemos bons resultados? É um trabalho de formiguinhas, mas, pode se revelar mais eficaz do que as campanhas de massa.
O livro é um objeto social, portanto, tem função ideológica, mas, essa função só se cumpre quando ocorre a interação livro/público, à parte disso, já não faz sentido. Termino recordando Castro Alves e seu belo poema O Livro e a América:

“Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto --
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe -- que faz a palma,
É chuva -- que faz o mar.




domingo, 23 de outubro de 2005

"Tudo que existe conta"

Rating:★★★★★
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O título dessa crônica é um verso de Adélia Prado, um verso que expressa uma verdade incontestável: as pessoas e até mesmo as coisas se dizem. O universo inteiro ressoa para aqueles que têm ouvidos para ouvir. Por isso, gosto de contar histórias, assim mesmo, com “his”, porque, de certa forma, tudo é imaginação, sem deixar de ser memória.

O ato de narrar e contar histórias faz parte do imaginário da humanidade. Narramos para espantar os nossos medos, para conhecer o mundo, o outro e a nós mesmos; narramos para preencher nossas vidas. Sempre que falamos sobre nosso cotidiano, nossas experiências, estamos praticando a narração. Contamos a lendas familiares e nos reencontramos, inteiros, na trama das gerações.

Como contadora de histórias, acredito que a narração, para cumprir seu efeito terapêutico, precisa ser construída e pensada como uma mensagem estética capaz de emocionar, de evocar alguma coisa profunda, íntima, dentro de nós, e que somente pode ser alcançada através da linguagem artística.

Os bons contadores sabem disso, portanto, mergulham nos contos até extrair deles toda beleza, todos os sentidos possíveis; não é importante contar muitas histórias, ter um repertório extenso. O importante é apreender a emoção estética do conto. Para isso, temos que mergulhar, saborear - saber com os sentidos as histórias, porque é essa mágica que vai captar a atenção do público, que vai cativar os ouvintes e colaborar para a formação dos futuros leitores. Contar histórias é como alimentar as crianças pequenas. Oferecemos o alimento em porções dosadas e as crianças crescem saudáveis. Oferecemos as histórias e as ajudamos a amadurecer, enfrentar os próprios medos, descobrir a própria mágica, aquela varinha de condão secreta, que, quando nos tornamos adultos, passamos a chamar de auto-estima.

Sandra B.

domingo, 16 de outubro de 2005

Literatura e Educação

Rating:★★★★★
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Recentemente, participei de uma palestra sobre educação não-formal, mesmo porque estou envolvida em alguns projetos que valorizam essa proposta. Embora o tema tenha sido abordado de forma mais geral, acredito que cada ouvinte aplicou o ensinamento à sua área de atuação. No meu caso, colaborou para reforçar algumas idéias sobre as quais tenho refletido, relacionadas ao dueto (que muitas vezes se transforma em duelo) Literatura e Educação.
É inquestionável que a escola tem um papel essencial na formação do aluno-leitor, entretanto, no contexto da rotina educacional muitas vezes assistimos aquilo que os pesquisadores da área chamam “didática da destruição da leitura”, que ocorre quando esta é entendida, apenas, como uma espécie de ponte para a verdadeira necessidade, que seria estudar, menosprezando o diferencial de qualidade representado pelo ensino precoce da Literatura.
Pensar essa problemática se torna fundamental quando nos deparamos com algumas estatísticas, como por exemplo, aquelas publicadas no documento Retrato da Leitura no Brasil (2004); segundo a pesquisa, apenas 15% dos quase 180 milhões de brasileiros podem ser considerados, de fato, leitores. O mesmo documento relata que apenas um em cada quatro brasileiros consegue entender totalmente as informações de textos mais longos e relacioná-las com outros dados. De acordo com este levantamento, aproximadamente 40% dos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais, isto é, pessoas que não conseguem utilizar a leitura e a escrita na vida cotidiana!
A presença do texto literário na escola precisa ser repensada; esse texto não pode ser utilizado somente como objeto útil ao ensino da gramática e mediador dos exercícios de interpretação, mas, como objeto estético cuja mágica tem potencial para reencantar o ambiente educacional. Utilizado de forma mais lúdica, o texto literário certamente cumprirá, também, o papel de facilitador do ensino da Língua Portuguesa e das demais disciplinas.
O enfoque estético do texto literário, objetivando melhorar a competência em leitura, tem sido muito utilizado em programas de educação não-formal – oficinas de formação de leitores e de contação de histórias - que, infelizmente, não são acessíveis à população que mais necessita deles. Assim, faz-se necessário que a escola, principalmente a escola pública, abrace esse desafio, promovendo o encontro prazeroso entre a Literatura e as crianças e jovens.
A escola e a literatura possuem caráter formativo; se a relação entre ambas ocorrer de forma mais harmoniosa, e menos utilitária no que se refere à concretização dos supostos objetivos escolares, quem sabe teremos a possibilidade de vencer o analfabetismo funcional através do gosto pela leitura. Afinal, gosto se aprende e o que se aprende se ensina.

Sandra B.

domingo, 10 de julho de 2005

Experiências de aquecer o coração


Quando me perguntam porque parei de lecionar, embora apaixonada pela Educação, eu tenho uma resposta pronta, elaborada para essas situações: parei de dar aulas porque o ambiente escolarizado não é lúdico, não é sensível, não é palatável. O meu limiar de frustração foi atingido e seria improdutivo continuar. Porém, eu não abandonei o meio educacional, já que participo de vários projetos de formação de professores, principalmente do Ensino Fundamental, e todos com foco na mesma questão: o aprendizado da leitura, a desescolarização da literatura, a preservação da memória.


Entretanto, o envolvimento com projetos de educação não-formal são aqueles que têm me dado maior prazer e, segundo me parece, são facilitadores da inclusão social. Um dos trabalhos que, considero, tem rendido muitos frutos, foi realizado junto à população de um  bairro da periferia de Rio Claro, o Cervezão.


No bairro em questão, há muito migrantes nordestinos, e, uma pesquisa mostrou que mais de 60% deles vieram da região de Canindé, no Ceará. Na cidade de Canindé acontece uma das maiores festas religiosas do Ceará: a romaria de São Francisco; geralmente, os migrantes não têm recursos financeiros para viajar e participar das comemorações, ou levar os filhos que aqui nasceram para conhecer o lugar e as tradições respeitadas pela família. Ocorre, também, que muitas dessas famílias são marginalizadas, ou, com muitos sacrifícios, saíram dessa situação de marginalização e observamos nelas o desejo de ocultar das novas gerações, já nascidas no lócus urbano, a memória do processo migratório, muitas vezes dolorosa, porque estigmatizadora.


Assim, as crianças, adolescentes e jovens são privados de sua história familiar, sendo-lhes impossível elaborar o senso de pertencimento à própria família, ao entorno do bairro e, finalmente, compreender-se inserido no fluxo histórico da cidade onde vivem. A escola formal não aceita o desafio da inclusão desses jovens na história local e os processos de discriminação não são discutidos. 


Assim, no Centro de Convivência do Cervezão realizamos um projeto de educação não formal através do qual comunicamos e ensinamos acerca dessas tradições, onde procuramos fazer uma ponte entre as gerações que valorizam antigas tradições e os seus significados e a geração mais jovem. A experiência resultou no Museu de Rua "Canindé fica no Cervezão", coordenado por mim, utilizando belíssimas fotografias feitas pelo Aguiar (ex-sub-prefeito do bairro) que esteve em Canindé para participar da festa e aprender, e textos que escrevi com base em pesquisa e depoimentos dos moradores.


O museu de rua "Canindé fica no Cervezão" ficou exposto nos dias em que se realizou uma festa, nos moldes da festa cearense e, depois, percorreu as escolas da cidade, contando aos alunos um pouco da história do interior do Brasil. Durante a realização da festa, onde foi servida comida típica preparada pelas mulheres do bairro, fizemos uma espécie de sarau só com a declamação de córdeis, os repentistas se apresentaram, os sanfoneiros, etc.


Foi uma experiência de aquecer o coração! A Dona Eulália, de 83 anos, e vivendo em Rio Claro desde 1975, nos abraçava o tempo todo, feliz, parecia uma menina-moça. Observamos uma expressão orgulhosa nos rostos de todas aquelas pessoas, pois tiveram uma oportunidade de reconstruir sua auto-estima, que, claro, influencia positivamente na retomada da voz dessa comunidade, favorecendo uma transformação da realidade local.


Projetos como esse não poderiam ficar à mercê de questões políticas, correndo o risco de não ter continuidade apenas porque outros partidos estão no poder. Mas, infelizmente, isso acontece com frequência, não se levando em conta as prioridades sociais. Portanto, vejo a necessidade dos movimentos sociais investirem cada vez mais maciçamente em projetos de educação não formal, contribuindo para o desenvolvimento humano.


Sandra B.


*imagem: fotografia do estandarte de S. Francisco do Canindé, carregado por moradores do bairro.


 


 

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Palestra do Ivan Capelatto

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O Amor em tempos de sobrecarga


Na quinta-feira passada, tive a oportunidade de ouvir uma palestra do psicanalista Ivan Capellato, que trabalha especialmente com crianças e jovens, e que esteve em Rio Claro convidado pelo Colégio Koelle. A palestra foi proferida no próprio colégio e contou com uma grande platéia, que, sem dúvida, ficou cativa do carisma e da didática demonstradas pelo palestrante na abordagem do interessante tema – “Amor em tempos de sobrecarga”.
Ivan Capellato trouxe a definição do que seria esse “tempo de sobrecarga”, o momento que vivenciamos na contemporaneidade: tempos difíceis onde, em todas as áreas da vida em sociedade prevalecem o individualismo, a competitividade e a violência, dificultando o estabelecimento de vínculos afetivos e comprometendo o pleno desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.
Algumas das estatísticas predominantes nesse “tempo de sobrecarga”, apresentadas por Ivan, são muito alarmantes, como por exemplo, a informação da Organização Mundial de Saúde de que o Brasil é o segundo país do mundo no que se refere ao consumo de drogas pesadas e também em relação ao suicídio de crianças e jovens (só na região de Campinas foram 208 mortes entre janeiro e maio). Para o psicanalista, essa questão do suicídio está intimamente ligada aos desequilíbrios afetivos.
O único antídoto possível contra esse desequilíbrio é o amor que se traduz na “mesmice do cuidado” – expressão usada por Ivan, para quem, cuidar é a única forma de amor possível. Nesse contexto, o amor-cuidado surge como a maior herança que os pais podem deixar aos filhos. Não se trata de somente “investir” nos filhos, visando torná-los individualistas e competitivos, mas de estar presente e cuidando, de não ser indiferente à necessidade de apego e à angústia que deriva dessa necessidade e precisa ser satisfeita no vínculo afetivo que permite “estruturar uma identidade capaz de suportar a sobrecarga”.
Essa espécie de amor-cuidado é ridicularizada nos tempos de sobrecarga. Os pais que cuidam, muitas vezes são acusados de não contribuírem com a autonomia, a independência dos filhos que, por sua vez, também se tornam alvo de piadinhas. A verdade é que a insegurança dos tempos de sobrecarga e a falência da afetividade têm levado os adolescentes e os jovens à prática de um comportamento cada vez mais destrutivo, demonstrando que os vínculos humanos não podem ser substituídos por mercadorias, as quais, supostamente, supririam necessidades que só o amor pode suprir.
Ivan Capellato finalizou sua explanação afirmando que os tempos de sobrecarga configuram a “sociedade da descrença”: não se acredita mais na ética, nos valores, nos princípios de convivência e reciprocidade, inclusive no seio das famílias. Perguntado se há formas de reverter essa situação, respondeu-nos que não sabe. Uma resposta honesta.
Saí da palestra com a certeza de que, enquanto indivíduos e sociedade, a única possibilidade de sairmos desse túnel escuro onde estamos é reaprender o amor-cuidado, reaprender a amar o próximo como amamos a nós mesmos, o que, para mim, significa admitir e confirmar a dignidade do próximo, seu valor como ser humano não-descartável, pois todos os outros valores só são realmente valores quando estão a serviço da dignidade humana. O contrário disso é o retorno ao caos.


Sandra R. S. Baldessin

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Vossas Excelências que se...


Trabalhando numa pesquisa acerca dos usos e costumes vigentes nas antigas monarquias européias, deparei-me, casualmente, com a descrição minuciosa das medidas adotadas nas circunstâncias em que funcionários do governo (vamos chamá-los assim) fossem surpreendidos em atos explícitos de corrupção.


Cativou-me particularmente a atenção o fato de que incompetência por parte dos mesmos era considerada corrupção passiva. Há uma lista interminável de “procedimentos” que se reuniam sob o rótulo de corrupção, os quais não vejo necessidade de citar; qualquer indivíduo que lê jornais regularmente sabe do que se trata.


Em alguns desses reinos e principados, qualquer cidadão possuía a divina liberdade de apresentar queixa ao tribunal competente contra o tal corrupto. E o melhor: o julgamento do sujeito se realizava publicamente, não enre os seus pares.


Porém, o que literalmente me deliciou, foi a quantidade de punições, todas muito criativas, às quais o corrupto estava sujeito. Desde uma mera advertência até um pedido público de desculpas, passando por pagamentos de multas e indenizações e, pasmem, uma categoria de punição denominada  “humilhação física”. 


A humilhação física consistia em que o cidadão lesado, aproximando-se do corrupto em questão, cuspia-lhe na cara, demonstrando todo seu desprezo; quanto maior o número de cidadãos lesados, maior a carga de cusparadas. Não havia empáfia que resistisse ao tratamento! 


Numa sociedade na qual todos eram considerados culpados até que conseguissem provar o contrário, torna-se fácil compreender porquê quase ninguém almejava um emprego público, a contratação chegava a ser compulsória. 


Hoje, inversamente, somos todos inocentes perante a Lei. Vai daí que...deputados, senadores, ministros, juízes e inclusive presidentes da república praticam o cinismo impunemente.  E todo o mundo anda atrás de um “cargo”, de um apadrinhamento, porque vale tudo no feirão do poder, até mesmo comprar votos dos supostos aliados!          Certamente, não defendo uma volta à barbárie. Acredito nas conquistas da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. Principalmente, na premissa que afirma que todos os homens são iguais perante a Lei. Infelizmente, na prática, a teoria é outra. Temos assistido ao exercício de uma democracia amoral, ou, como definia Mencken – o jornalista mestre da ironia – temos assistido a “administração do circo a partir da jaula dos macacos”.  


 


Sandra R. S. Baldessin


               


 


 

terça-feira, 3 de maio de 2005

Não à discriminação

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DE VEZ EM QUANDO ELES ACERTAM

Os jornais franceses destacaram a posição do Ministério da Saúde Brasileiro que recusou a ajuda financeira do governo americano através do Programa USAID, um financiamento no valor de 48 milhões de dólares para ser aplicado no combate a Aids; os americanos impuseram como condição para liberar o dinheiro que ele não fosse usado para tratar prostitutas que, eventualmente, contraíssem a doença ou que já estivessem contaminadas pelo HIV. Além de exigir a exclusão das prostitutas do programa, solicitava que o governo brasileiro repudiasse publicamente a prostituição, numa clara demonstração de preconceito e intolerância.
Segundo informações, o governo americano já abrira mão de outra exigência constante do projeto inicial, a qual impunha que o governo brasileiro adotasse as políticas do governo de George W. Bush, que exalta a abstinência sexual e a fidelidade.
O coordenador do programa brasileiro de luta contra a AIDS, Pedro Chequer, declarou à imprensa que os princípios do USAID são maniqueístas e influenciados pela teologia fundamentalista, e que esses princípios não colaboram em nada para controlar a epidemia da AIDS. Os 48 milhões de dólares do USAID configuram 2 a 3% do orçamento total do programa brasileiro de luta contra as doenças sexualmente transmissíveis (entre 2003-2008), e são utilizados para financiar ações organizações não governamentais (ONGs), para pesquisa, e em campanhas que incentivam o uso do preservativo.
O governo brasileiro que já financia 90% do programa, cobrirá a parte do USAID, caso o governo americano mantenha as exigências. Várias ONGs brasileiras envolvidas na luta contra a Aids se manifestaram apoiando a atitude do governo, pois seria uma vitória da discriminação e do preconceito mudar a orientação do programa governamental de combate a Aids, excluindo o cuidado e o tratamento dispensado aos homossexuais, prostitutas e toxicômanos.
O jornal também destaca que o programa brasileiro de combate a Aids é um dos melhores do mundo.

Publicado em Le Nouvel Observateur; tradução: Sandra Baldessin


sábado, 23 de abril de 2005

Leituras e leitores


O jornal Rascunho, edição de março de 2005, traz um artigo interessante do escritor Nelson de Oliveira, texto que discute o tema abordado por ele no seminário Leitura de Inquietações, na mesa redonda – Literatura: só quem a lê é leitor?


Nelson relata que o assunto proposto pelos organizadores do seminário “atazanou” sua vida, enquanto buscava a melhor maneira de expressar sua opinião, que se resume na frase: “Os milhões de brasileiros para os quais Joyce e Rosa, Maiakovski e João Cabral, Kafka e Clarice não fazem o menor sentido, esses não podem ser considerados grandes leitores.”


Declaração polêmica, que o próprio Nelson admite ser politicamente incorreta, mas, segundo seu ponto de vista, a tentativa de ser sutil, quando se trata dessa questão, resvala para a “demagogia e a hipocrisia” Concordo com ele sob esse aspecto.


Discordo, porém, com a definição “alta literatura” com a qual ele classifica as obras acessíveis apenas aos “leitores sofisticados”, aqueles que possuem a chave que abre as portas desse universo de signos tão belos e perturbadores. Essas obras compõem a Literatura, e ponto final. É preciso encontrar palavras que definam e classifiquem todas as demais escrituras que não se identifiquem como literárias.


Pessoalmente, considero uma afronta a Machado de Assis, Nélida Piñon, Guimarães Rosa e, por que não, ao próprio Nelson de Oliveira, classificar como Literatura os livros de auto-ajuda, os livros dos marqueteiros e tantos outros, como por exemplo, aquele lançado pelo jogador de futebol Renato Gaúcho. Livros que tem uma finalidade, que foram escritos para alguma coisa.


A Literatura não tem a menor utilidade, por isso sacia a nossa fome das coisas últimas e não das coisas úteis. As obras verdadeiramente literárias demarcam um território poderoso em nosso imaginário, reinventam os nomes das coisas, o sentir e os sentidos, recriam nações e seus homens, traçando a geografia dos mundos possíveis. Eu me defino como ser-no-mundo quando afirmo: sou do país de Guimarães Rosa, do estado de Mário de Andrade, da cidade de Florideu Gervásio.


A Literatura é inscrição que permanece, corpo-de-saber que, ao criar, instituir e transmitir conhecimentos funda nossa história e influencia nossa identidade, basta relembrar o que Homero representa para os gregos e Shakespeare para os bretões.


Assim, concluo que estou ao lado dos politicamente incorretos. Não por acreditar que o acesso à Literatura deva ser privilégio das elites intelectuais, mas, por não concordar que para se construir uma sociedade mais democrática e igualitária seja necessário baixar os padrões que definem a verdadeira Literatura, coisa mais fácil de ser feita do que uma revolução cultural e educacional que ofereça a chave desses universos para um número cada vez maior de pessoas.


 


Sandra R. S. Baldessin


 


Imagem: fotografia do livro "Cazador de libros -  en busca de los libros malditos"