No vídeo, a canção Belle, do musical Notre Dame de Paris, interpretada por Garou, Daniel Lavoie e Patrick Fiori.
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
Garou, Daniel Lavoie & Patrick Fiori "Belle"
No vídeo, a canção Belle, do musical Notre Dame de Paris, interpretada por Garou, Daniel Lavoie e Patrick Fiori.
domingo, 12 de novembro de 2006
Imensa asa sobre o dia
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Books |
| Genre: | Literature & Fiction |
| Author: | Antonio Mariano |
Antonio Mariano, escritor paraibano, poeta consagrado, com seu Imensa asa sobre o dia, livro de contos que integra a Coleção Tamarindo, revela-se um excelente contista.
Imensa asa sobre o dia reúne 13 contos; os protagonistas de todas as histórias são nomeados Jailson, pelo autor. A paixão pela origem dos nomes me obriga a referir que, se Jah é o nome de Deus, as personagens de Mariano trazem o estigma de todos os filhos de Jah: a inexorabilidade da condição humana.
Particularmente, (já que sou viciada em Tchekhov – supremo mestre de todos os contistas - e em Cortazar, seu discípulo) observei que Mariano demonstrou, já nesse primeiro livro de contos, a característica principal de um contista com potencial para se destacar entre seus contemporâneos: seus contos possuem o delicioso caráter de jogo.
Essa função lúdica presente nos contos de Mariano se revela em toda sua expressividade no conto A construção do silêncio. O enigma doloroso da convivência humana surge no jogo de ‘gato e rato’ estabelecido entre o pai e o filho. O conto se dá justamente no momento em que as mentiras essenciais que sustentam essa delicada relação se tornam insuficientes, no instante limiar em que “é tarde para desistir”, como a própria personagem observa.
Aliás, o sentido de compreensão tardia de coisas fundamentais para a sobrevivência das personagens permeia todas as histórias e esse fator contribui para ampliar a imagem de jogo presente nos contos. Em Seguindo Alice, sobretudo, a crueldade embutida no conceito de ‘tarde demais’ se cumpre plenamente.
Assistimos as personagens se movimentando no tabuleiro labiríntico que Mariano construiu especialmente para elas e tentamos adivinhar se atinarão com a saída. Ilusão vã que alimenta os filhos de Jah.
Desde as pequenas mazelas até os grandes crimes e insuportáveis alvoroços da alma e do corpo, tudo que é comum ao homem está presente nos Jailsons de Antonio Mariano.
Destaco, ainda, dois dos contos mais instigantes da coletânea: O poeta e O dia em que comemos Maria Dulce. Em O poeta Mariano recupera um desejo surrealista: a possibilidade de viver como poeta, de poetizar a vida, ainda que jamais tenhamos escrito qualquer verso. Um pacato e invisível funcionário público enlouquece (ou chega à razão suprema) e se declara, irreversivelmente, poeta. O conto, em sua aparente simplicidade, revela a condição marginal do poeta e da poesia na sociedade contemporânea.
O dia em que comemos Maria Dulce foge ao realismo presente em todos os outros contos. Mariano utiliza recursos do gênero fantástico-maravilhoso para nos conduzir numa viagem insólita ao reino da fome e das pulsões inimagináveis: “Podia sentir o mormaço do corpo dela... O hálito que era como o bafo de um bolo assando, uma porção de caramelo saindo pelas bordas do tacho, um pudim fumegante, um doce de leite dando o ponto. (...) Minha boca encheu-se d’água.”
E mais não digo. Leiam o livro.
(Crônica Literária, Sandra B.)
A vingança dos objetos
lençóis no
varal
a tarde
branca se
alastrando em
nossos corpos -
velas ao
mar
Sandra B.
Imagem: Vênus e Marte. Boticelli. Disponível em:
http://pintoresfamosos.juegofanatico.cl/images/botticelli/venus_marte.jpg
http://pintoresfamosos.juegofanatico.cl/images/botticelli/venus_marte.jpg
Caribay e as cinco águias brancas
Description:
Essa história faz parte da mitologia dos Mirripuyes (antiga tribo da região dos Andes venezuelanos).
Integra uma coletânea de contos de tradição oral de vários povos, fruto de uma pesquisa temática que estou realizando e que aborda o tema paixão.
Ingredients:
Caribay e as cinco águias brancas
Tradução de Sandra R.S. Baldessin
Directions:
Esta é a história de Caribay, a primeira mulher criada. Ela era filha do ardente Zuhé (o Sol) e da pálida Chía (a lua). Caribay era formosa, manifestava-se como um gênio das florestas aromáticas. Podia imitar perfeitamente o canto dos pássaros e suas companheiras eram as flores e as árvores, com as quais passava os dias em alegres brincadeiras.
Certo dia, Caribay olhava o céu quando viu cinco esplêndidas águias brancas. A beleza de suas plumas despertou a paixão na linda jovem que começou a seguir as águias por todos os lugares, atravessando vales e montanhas, seguindo, incansável, as sombras das aves que se desenhavam no solo. Afinal, chegou a um lugar muito alto, e desse local pode ver que as águias desapareciam nas alturas azuladas do firmamento.
A tristeza tomou conta do coração de Caribay, pois ela desejava ardentemente adornar-se com as plumas das águias. Então, Caribay ergueu a sua voz e clamou por Chía, sua mãe. Não demorou muito e as águias surgiram novamente diante de seus olhos úmidos de lágrimas. Enquanto as imponentes aves voavam harmoniosamente, Caribay cantava com toda doçura, para atraí-las.
As águias, então, encantadas pelo som adorável do canto de Caribay, se quedaram, imóveis no ar. Carybay aproveitou essa imobilidade e correu até elas, para arrancar-lhes as penas, que sua paixão exigia que possuísse. Porém, um frio glacial petrificou suas mãos antes que ela pudesse alcançar as águias. Percebeu, então, que as aves, enfeitiçadas por sua voz, ao deixarem de voar ficaram enregeladas e se converteram-se em cinco enormes massas de gelo.
Caribay gritou, aterrorizada. Pouco depois, Chía se obscureceu e as cinco águias despertaram. Furiosas, sacudiram as suas penas imaculadas e, assim, toda a extensão da montanha se engalanou com a belíssima plumagem branca.
Os blocos de gelo do qual se libertaram as águias originaram as incomparáveis serras nevadas da Mérida. As águias simbolizam os cinco picos eternamente cobertos de neve, que são as plumas congeladas das aves. As grandes e tempestuosas nevadas que ocorrem no local são um cerimonial da natureza, que relembra o furioso despertar das águias. O sibilar do vento que acompanha a fúria das nevadas representa a doçura e a tristeza do canto de Caribay.
Imagem: Caribay e las aguias. Escaneado de "Mitos y leyendas de Latinoamerica.
segunda-feira, 18 de setembro de 2006
Mahura - a lenda da menina trabalhadeira
Description:
Este é um belo mito africano, que gosto muito de contar. Vamos brincar de faz-de-conta que estamos numa roda, em torno de uma fogueira, tecendo as lembranças de uma vida que já vivemos.
Ingredients:
Um dia, numa tribo distante, em tempos remotos lá na África, um grupo de crianças perguntou ao velho e sábio sacerdote o porque de o céu ser tão belo e estar tão longe da terra. O sacerdote em sua sublime sabedoria contou-lhes uma história que é mais ou menos assim: “Quando Deus criou o universo, o céu e a terra viviam juntos e em perfeita harmonia. As nuvens brincavam no chão junto às pedras. O vento divertia-se pregando peças nas folhas das palmeiras que dançavam ao som da brisa suave. As gotas de chuva misturavam-se às águas das cachoeiras e quase não se percebia a diferença entre os elementos do céu e os da terra. Essa harmonia perfeita durou muito tempo.
Um dia a terra resolveu que havia chegado a hora de ter um filho, pois sendo a terra era a geradora da vida. E a terra teve uma filha a qual deu o nome de MAHURA (que significa aquela que trabalha). Mahura cresceu depressa e como seu nome dizia era muito trabalhadeira.
Durante o dia, Mahura cuidava dos ciclos da natureza e, à noite, ao invés de descansar sentava-se ao chão perto de um enorme pilão onde passava a triturar raízes, sementes e cascas. O pilão era mágico e quanto mais era usado, mais crescia. Mahura usava uma enorme mão-de-pilão para triturar as raízes e cada vez mais utilizava força para bater.
Com isso começou a machucar o céu que a princípio gemia baixinho mas, depois não suportando as dores causadas pela mão-de-pilão de Mahura, passou a reclamar. Mahura apenas dizia: Céu, sobe só um pouquinho... Com isso o céu foi se distanciando cada vez mais chegando ao ponto de as nuvens não alcançarem mais o chão para brincar nem as gotas de chuva conseguiam mais molhar o solo que foi enfraquecendo e empobrecendo. Só então a pequena Mahura se deu conta do que havia feito e decidiu pedir desculpas ao céu para que ele voltasse.
Procurando um presente a menina retirou do leito de um rio que teimava em correr uma pepita dourada à qual deu o nome de sol. Do fundo de uma caverna escura retirou uma pedra branca e reluzente à qual deu o nome de lua. Atirou os presentes bem para o alto, um de cada lado do céu como pedido de desculpas. O céu aceitou os presentes, mas decidiu ficar lá no alto, pois era mais seguro.
Se vocês pensam que essa é apenas uma história, hoje à noite olhem para o céu. As estrelas que verão, brilhando, nada mais são do que as cicatrizes deixadas pelo pilão de Mahura.
Assim o velho sábio terminou sua história.
Directions:
Lenda adaptada pelo grupo "Recreação Infantil"
imagem: Noche estellada. Vincent Van Gogh. Disponível em: www.arteycultura.zumodelimon.com
sábado, 3 de junho de 2006
Justiça Poética
http://www.justicapoetica.blogspot.com
Pessoas, criei um blogue para partilhar alguns poemas, alguns poetas que me são indispensáveis.
Pessoas, criei um blogue para partilhar alguns poemas, alguns poetas que me são indispensáveis.
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Resenhando Vivências
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Other |
“Artes da existência” é a denominação que a antiga civilização greco-romana dava ao conjunto de conhecimentos sobre a sexualidade humana, e que foram brilhantemente analisadas pelo filósofo francês Michel Foucault em sua obra História da Sexualidade II.
É interessante observar que esses conhecimentos eram permeados por conceitos estéticos; o termo ‘estético’, aqui, não aparece limitado pela definição mais comum que assumiu no mundo contemporâneo, mas, no seu sentido mais profundo – apreensão estética, estesia (aisthesis, do grego) - ou seja, a capacidade que um sujeito possui de apreender certa realidade exterior de modo sensitivo e sensual, através do uso pleno dos seus sentidos.
A estesia antagoniza a anestesia; assim, estar estésico é abrir-se às sensações, deixar-se provocar. Quando pensamos a sexualidade dessa forma podemos entendê-la, realmente, como Arte. E, enquanto arte, o sexo tem o poder de reencantar a realidade apreendida, produzindo uma espécie de êxtase que perturba, no sentido que modifica, os significados do cotidiano. Seguindo esse raciocínio acerca da estesia e suas relações com a sexualidade, tenho observado que, de modo geral, a maioria das pessoas não procura uma vivência sensorial, relegando a sensualidade exclusivamente à vida sexual, e pior, ao momento do êxtase. Somos seres potencialmente sensuais, isto é, seres que têm à disposição o enorme potencial de um sistema sensitivo muito sofisticado e quase inexplorado. Se não desfrutarmos amplamente desta sensorialidade, nas mínimas coisas cotidianas, não atingiremos o ideal do sexo enquanto Arte, permanecendo aquém dessa possibilidade.
São muitos os fatores que nos impedem de desfrutar uma vivência mais sensual; o mais poderoso, claro, é o condicionante cultural que pretende as sensações ligadas ao corpo e aos sentidos como de somenos importância. Este condicionante domina todas as áreas da vida, roubando o caráter sensorial das nossas várias experiências: a educação já não é sensível, o jogo já não é lúdico e nossa convivência social é cada vez mais asséptica. Segundo essa lógica, até mesmo o sexo está perdendo o seu caráter sensual, pois, sensualidade nada mais é do que a capacidade de viver em estesia.
O corpo que sente é uma entidade aberta, incompleta, que só se complementa nas coisas, no mundo, no outro.
Os versos sensoriais de Pablo Neruda expressam perfeitamente essa realidade: “Eu era a sede e a fome, e tu foste a fruta.”
Sandra B.
imagem disponível em: www.lamolina.edu.pe
Esse texto foi publicado originalmente no sítio: www.gehspace.com
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