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domingo, 26 de março de 2006

Anjinho de mamãe*


Caminha apressado, esbarrando mesmo nas pessoas com as quais cruza. A mão esquerda, guiada por um comando superior, risca as fachadas das casas, das lojas.  Isso é real, isso é real, isso é real. O suor escorrendo dos cabelos para o rosto, molhando o pescoço, as costas. Sente as virilhas úmidas. O suor, sim, o suor é uma prova incontestável de que ele também é real.  Real enquanto matéria viva, apodrecendo sob o sol de janeiro.


Não consegue evitar, mete o nariz nas axilas. O cheiro azedo da decomposição que um dia será plena. Sente-se nauseado de tão feliz. Se está fedendo é porque existe. Basta-lhe essa compreensão.  Assalta-o o desejo de se apalpar; vem tão intenso que é impossível resistir. Toca os próprios braços, o peito, os testículos, freneticamente.  De fato, existo. E se existo, esta rua  pela qual caminho também é real,  e aquela árvore...


            Dá uma pequena corrida até o final da calçada e abraça-se à arvore, um flamboyant.  Inspira profundamente, esfregando o nariz, o rosto, no tronco. Vontade de rir e chorar enquanto gira ao redor do tronco. A canção, lembra-se daquela canção? Cantava-se  de mãos dadas ao redor de uma árvore, num lugar tão distante chamado infância.


            Por que partira de si-mesmo-menino, deixando o aconchego de um mundo que cabia no abraço da mamãe? É verdade que recusara-se até o limite das possibilidades! Mas, os braços, as pernas, desandaram  a crescer; pêlos escuros, intrusos, nasceram em seu peito, no rosto, em seu sexo, e não adiantava mais a mãe chamá-lo “meu bebê”. 


O anjinho de mamãe não se via mais no espelho. Já não era real. Quem seria, meu deus, aquele homem de olhos negros que o fitava tão surpreso? E o medo, sim, o pavor de que a mãe descobrisse que ele não estava mais ali? É verdade que ela parecia não perceber.


E não fora sempre assim? Lembrava-se de chegar em casa chorando, porque a professora insistia em dizer-lhe: você já está um homenzinho.  Mentira que a mãe negava entre beijos: meu bebê, o anjinho da mamãe não vai crescer, venha no colinho da mamãe, venha. “Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta...”


Um guarda municipal o aborda. Que diabos está fazendo girando feito um doido em volta dessa árvore?  Vamos, vamos, que maluquice é essa? Esta é uma cidade tranqüila, não gostamos de nenhum tipo de malucos. Vai ver... está drogado, é isso? Mas, era só o que faltava! Aqui não toleramos essas coisas, não! Apontava o dedo para o seu rosto enquanto falava e suas bochechas gordas tremiam. A voz saía estrangulada de uma boca sustentada por três queixos.


Seria real esse homem gorduroso metido numa farda azul escura? Estende a mão para tocá-lo, certificar-se de sua existência. O guarda agarra o seu braço estendido e começa a torcer. A dor é intensa. Se está doendo, então é real. Graças a Deus! Sorri, um sorriso que é uma careta de dor e de alívio e que o seu agressor interpreta como escárnio.


Seu filho da puta! Esta é uma cidade de gente normal; gente normal, entendeu? Olha ao redor, furtivamente, antes de desferir um murro nos rins do rapaz e, em seguida, outro que o atinge no nariz.  Sangue, isso é sangue... Estou sangrando porque existo. Uma onda de insuportável felicidade domina o seu coração; felicidade que se extravasa através de um fluxo incontrolável de  gargalhadas guturais.


Seu corpo está possuído de tremenda energia, a energia de saber-se real. Tenta abraçar o guarda, envolver aquela montanha de carne que tão generosamente demonstrou o quanto ele existe. Existe, na verdade, a ponto de sangrar!  Quantas vezes, trancado no banheiro, ele próprio se infringira um corte com a lâmina de barbear, desesperado, precisando do testemunho da dor e do sangue para sentir-se parte da realidade.


Oh! Como ele ama aquele ser humano uniformizado, fedendo à cachaça e torresmo!  Pensa que deveria dizer algo ao guarda, mas as palavras sempre lhe pareceram insuficientes para expressar seus sentimentos.  Fica apenas olhando-o com devotada atenção.  Sim, ele sabe reconhecer a fúria quando a encontra. Quase sempre se revela no ferro do olhar, nas mãos que se contorcem... Porém, a boca, claro, a boca é a testemunha mais fiel da ira:  antropofágica, salivante. 


Aproveitando-se do lusco-fusco, aquela hora estranha na qual as pessoas parecem desaparecer na névoa de si mesmas, o guarda arrasta sua presa até o automóvel, estacionado próximo dali. O rapaz não resiste. Acomoda-se no banco para o qual foi empurrado como se tivesse recebido convite para um passeio.


Não resiste nem mesmo quando o legítimo representante dos homens normais arranca-o com violência do veículo, esmurrando-o apaixonadamente. Caído, seu corpo jovem é chutado, a botina pesada contra suas têmporas. “Sambalelê tá doente, tá com a cabeça quebrada, sambalelê precisava, é de umas boas palmadas...”    


A lua surge por detrás das nuvens no exato instante em que o guarda, abrindo o zíper das calças, revela a faca e o pênis, explodindo num orgasmo primitivo.


Lâmina e luar, mesclados, dão ao rapaz a ilusão perfeita dos olhos afetuosos de  mamãe. Adormece, a sua voz acalentando-o. “ Dorme neném, que a cuca vem pegar...”


 


Sandra B.


 


* este é o conto que concorreu ao Mapa Cultural Paulista, mas não foi classificado para a


premiação final.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Adélia*


 


            Nascera para deixar os homens esperando. O pai, seu primeiro e mais fiel adorador, contara-lhe segredos admiráveis sobre eles. Sacrificara, impiedoso, a sua própria imagem de macho arrogante para que ela pudesse ver - o homem - despojado do feitiço da virilidade.


            Ela não tinha memória do dia em que percebera que ele estava empenhado em reconstruir-se nela. A mãe, praticante de uma submissão irônica, assistira, mais curiosa que preocupada, o aprendizado da pequena Adélia.


            Na verdade, apenas quando a menina já contava catorze anos, a mulher, que passara a vida bebendo amargura, pressentiu, de forma agoniada, o destino que o pai pretendia lhe dar. Foi, entretanto, privada de assistir o desfecho das coisas. Morreu. Câncer de estômago.


            Ele vivia com a boca seca. Quem deseja sabe. Planejara permanecer casado somente por dois ou três anos, no máximo. As mulheres nunca o atraíram e a convivência com elas parecia-lhe sufocante. Contudo, Adélia (colocara na filha o nome de sua avó, não que a amasse, apenas para seguir a tradição) não lhe permitiu tal opção.


            Ele a amou. Compreendia que se amava nela, mistérios da incorporação. Sabia, também, que caso se separasse da esposa, Adélia estaria perdida para ele. Decidira ficar e tecer as tramas da vida da filha.


            A esposa não se importara; a menina pertencia, sobretudo, a um nome. Tinha a vida penhorada. Ele não precisou disputar Adélia com ninguém. Eram apenas os dois. Cúmplices.


            Cúmplices, sim, pois não lhe mostrara ele, aquela fotografia? Oh! Sim! Ela era um bebê. Ele montara cuidadosamente a câmera sobre o tripé, depois de ter depilado o tórax. Lambuzara os mamilos com mel e aproximara a menina para que ela os sugasse. Repetira muitas vezes o ritual. A mãe se recusara a amamentá-la: coisa animalesca, dizia.           


Ao mostrar-lhe a foto, ela chorara. Devia ter uns dez anos. Ele também chorou, tomado de um sentimento de devoção. No dia seguinte ela menstruara. Ele mandou que ela lesse os livros de Jean Genet; ela leu o que havia para ser lido. Ah! Os segredos que compartilhavam...


            Não temeu, nem mesmo quando viu a fêmea desabrochando feito flor daquela carne tão branca. Adélia crescera noturnamente. Ele presenteou-a com um objeto inesperado: que nenhum homem a surpreendesse virgem!


            Ela adorava o poder. O poder de ser Adélia. Afiava os olhos nas faces dos homens que viviam cercando-a. Sabia que eles queriam muito mais do que ela poderia dar. Todo o seu ser estava comprometido com o homem com o qual celebrara ritos secretos de comunhão. Ritos doces como o mel.


            Nunca. Nunca em toda sua vida desejara uma mulher. Mas, aquela, não era uma mulher. Era, talvez, uma obra de arte. De sua autoria. Ela praticava, contra ele, as lições que ele passara a vida ensinando-a.


            Desejar doía. Com a carne dilacerada pela angústia da posse adiada, ele esperava, sempre. Não fora ele que a ensinara a tardar?  Vez por outra ela atraía homens para a sua cama. Cúmplices.


            Fora numa dessas noites que ele atinara com sua própria verdade. Adélia não era dele: era ele. Desta vez, presenteou-a com um terno, um belíssimo costume, feito sob medida, incluindo um chapéu.   


 


Sandra B.


 


* Adélia. Coletânea "Capitus?"


Imagem: Bartira, de  Miguel Ángel Perez.

sábado, 10 de setembro de 2005

Alicenógena*



“A beleza será convulsiva – ou não será”  André Breton


 


 


Alice chega, acompanhada dos seus fantasmas. A lâmina, tão próxima da garganta, presa por um barbante encardido, circundando o pescoço alvo. O que mais corta em Alice são os seus olhos. Sílesis.  Fragmentos de um espelho quebrado ornamentam as pernas da calça e conforme ela se aproxima vejo-me dividido em dezenas de figuras que vão se deformando.


Maracujás frescos. O beijo. A faca penetrando a carne da fruta e liberando seu aroma mais secreto.


O primeiro encontro foi na bienal de arte; Alice abordava as pessoas, carimbando-as com sua digital. O seu polegar, roxo de tinta, colou-se ao meu pescoço.   O choque com as turquesas do olhar durou um segundo. Isso  define você? Segurando pelo pulso a mão suja dela.  Tornei a vê-la no finalzinho da tarde. Pensara nela algumas vezes, ao observar pessoas carimbadas pelos seus dedos. Ela mantivera contato  com centenas de pessoas, mas,  aparentemente reconheceu-me, pois acenou e fez um gesto apontando para a lanchonete.


Batom, não. Nem um único traço de maquiagem. Há pequeninas folhas de árvore coladas na camiseta. Viçosas, algumas, recém-colhidas.  Pobre de mim, que pinto naturezas-mortas. Nela, tudo lateja, celebrando a vida.


Saímos juntos do Ibirapuera. Posso te dar uma carona. Moro longe. Tudo bem. O bairro é um bocado perigoso. Eu me arrisco uma vez por ano, pode ser hoje. O brinco na orelha esquerda é um dente-de-leite. As turquesas mirando bem de perto o meu rosto.


Esta aqui atrás, de rabo-de-cavalo. Mas é só um  retrato na parede, não explica  a aflição.  Desde menina aquele olhar de quem estranha  tudo.  Má filha, péssima aluna, anticinderela.


Você quer me comer, não atravessaria a cidade toda só por um café. Eu aceito o café. As paredes estão cobertas de fotografias rabiscadas, semirasgadas, coladas a outras de forma irregular. Tem o michael jackson  mamando as tetas de uma negra enorme e linda. E aquela imagem famosa do anjo da guarda, com auréola e tudo, as mãos redesenhadas agarradas às coxas da débora secco, lolitamaldita. 


Objetos cortantes se espalham por todos os lados; reparo num prego cravado numa maçã, sobre a pia. É tudo muito limpo, o chão parece encerado. Um cheiro intenso de maracujá.


Refletida nos cacos de espelho, a imagem de um homem qualquer. A minha


 Detesto que cuide de mim, que fique me perguntando se eu já almocei. Sim senhor, eu tomei banho e coloquei uma calcinha de algodão limpa, mas isso não me torna casta.


Comprei uma gravura, uma cópia do Andy Wharol. É pra você. É feito você. As turquesas crescem pra dentro de mim. Não me dê coisas, não goste de mim. Beijobeijobeijobeijo.  Se é feito eu, guarda com você, pra me esquecer mais depressa. Nunca aceita o convite pra ir ao meu apartamento. Eu não gosto desse seu mundo sem arestas. 


No primeiro encontro, foi só o café. No domingo seguinte eu arrisquei aparecer sem avisar (telefone está na lista dos objetos que Alice repugna). Tem aquela mulher que foi casada com um presidente americano, jackeline. A foto é antiga, preto e branco, ela está nua e há uma nota de 1 dólar cobrindo o sexo.


Aquela era a minha mãe. Ela chorava quando ouvia o Roberto Carlos cantando, mas não dá pra ver isso na foto. Hoje, você vai me comer, acabou o café.


O que é uma mulher? O que é esta mulher que ao se mostrar nua me arrasta para dentro das suas sombras? Tateio os minúsculos cortes em suas mãos.  Ela é de verdade. A carne quente ao toque e a surpresa da ternura. Desde então, sempre a surpresa dessa ternura, ainda que selvagem, que jamais se manifesta em outra situação.


Alice fez uma incisão milimétrica nos olhos da adriana calcanhotto de onde vazam notas musicais coladas à maneira de lágrimas. Estaria a música no olhar? É a última imagem que vejo, antes de fechar os olhos e gozar.


Como assim, esquecer mais depressa? Alice, pertencida de abandono. Por que? Você acreditou que ia “constituir família” comigo? Eu preciso da ternura e do ódio também. Ai, meu deus, você queria que eu fosse uma personagem da bárbara cartland! Uma inglesa babaca que escrevia estorinhas de amor com final feliz, a minha mãe lia... História comigo não tem essa de feliz.


Eu não sei o tamanho da dor de Alice, mas deve ser grande e está presente em tudo; em seus gestos, nas fotografias que ela destrói-constrói,  no cabelo assimétrico, cortado com faca, nos seus desenhos. Está no coração do seu corpo que eu penetro sem ilusão de possuí-la.


Ela empurra a gravura na minha direção e nem mesmo olha pra ver como é. Tenho que ir. Mas você nem chegou. Lembro-me de clarice: saudade só passa quando a gente come a presença. Explico pra ela, clarice, a escritora. Alice sabe que não estou falando de uma última transada antes da despedida inevitável. Sabe, sim.


Maracujás frescos. Os sucos de Alice.  A faca desvendando o segredo da fruta.


Refletido nos cacos do olhar, quem sou não me reconheço.


 


Sandra B.


 


* O conto Alicenógena foi publicado pela Revista Cult, edição de abril; por conta dessa divulgação, fui convidada a integrar uma antologia de contistas latinoamericanos contemporâneos, editada pelo Centro de Estudios Literarios de la Universidad de Madri.


imagem: La donna - Egon Schiele. Disponível em: www.makilout.net


 


 

sábado, 20 de agosto de 2005

você-você


Eu salvei você, foi para que sua imagem, a verdadeira você se salvasse. Foi para que essa você que me habita não se perdesse em si mesma. Foi por você. Você-você.


Não essa você que de repente se tornou você-sem-mim, essa que cresceu e se apoderou de você, essa cadela-de-você que criou língua e inventou a ladainha do adeus.


Ah, você-você sempre aceitou de pernas abertas as flores em troca das flores púrpuras que eu plantava no seu corpo. Já você-sem-você se atreveu a acreditar que o seu corpo lhe pertencia, que você-sem-você poderia levá-lo pra um lugar onde eu não estivesse e isso não podia ser.


Essa você-sem-você logo logo acabaria falada e com que cara que eu ia ficar? Diz você-puta! Mas você não! Você-você é aquela menina virgem do retrato em cima da TV... olha lá, eu-com-você no dia do nosso casamento.


Eu-com-você tinha que ser pra sempre, com você-você calma como está agora, pena que a outra-de-você cortou o cabelo assim, curtinho, mas veja só, eu botei o véu na sua cabeça e você-você está linda... tão linda.


Fecha os olhos, meu amor, é melhor dormir de olhos fechados... pronto... eu fecho pra você-você, fica deitadinha no meu colo, eu esquento você-você.


Eu sei que você-você entendeu que o meu amor não podia deixar aquela-puta-de-você ir embora de mim, embora de nós... agora não tem mais perigo dela-você levar você-você pra longe. Não se preocupe, eu salvei você...


 


Sandra B.


 


imagem: Jalouse. Captada em unit.bjork.com


 

domingo, 24 de julho de 2005

Devaneios com Egon*



Ele me olha e avisa que vai me pintar. Os olhos, febris, analisam os meus ossos. Eu anuncio que minha carne se lê com as mãos, e sorrio. Penso em Egon, que ele, claro, não conhece. Morrerá aos vinte e oito anos?


Quero lhe falar sobre Schiele, e me cubro, já assumindo ares didáticos. Desnuda! Ele me ordena, e se assusta. Desnuda? Seja. Emudeço.


Ele abre as janelas e ajoelha-se ao lado da cama, misturando cores. As mãos, tintas de azuis e vermelhos, se mudam para o meu corpo. Na tela de nácar se nomeia o meu silêncio: caminhos-dentro que não percorri.


Suas mãos nomearão o que se abriga em minhas entranhas?  Meu corpo tocado tocante tocata vai se cumprindo a cada pincelada desferida por seus dedos. Egon, eu te batizo. Ele me enterra as unhas nas coxas.


Foi assim que eu descobri que ele me possuía. A mim, que desejei metabolizá-lo como a coisa viva que era; fazê-lo meu semelhante, coisa de carne e sangue da qual eu podia me apropriar. Ah, que longa a jornada antes desse lúcido momento! De repente percebo que, sim, estará morto aos vinte e oito anos. 


Sandra B.


*divagação ficcional em torno do artista Egon Schiele, um dos mais inquietantes expressionistas.


* imagem: "Embrace Lovers"

sábado, 23 de julho de 2005

Boneca torta*


Aplausos. A intensidade deles a inebria, sempre. Não é nada parecido com o que sente quando está a sós com ele, claro, mas, também fazem com que o coração dispare. A sensação mais parecida com aquela que a domina quando está com ele, trancada, ela experimenta ao ouvir suas próprias gravações. Nesses momentos, ela esquece o cansaço extremo e a debilidade que a tem perseguido nos últimos meses.


Imaginando-se montada num ginete negro, Jackie recomeça a cavalgada, prendendo o violoncelo entre as pernas. Sua música, sem rédeas, galopa desenfreada arrastando-a e ao público para uma espécie de éden. Eles a desejam, ela sente a onda poderosa que emana deles, o cheiro dos corpos que os preciosos perfumes não conseguem diluir. A boca entreaberta e a respiração ofegante, ela os possui.


Agora que os últimos acordes da sonata em lá maior de Beethoven a dominam, ela reparte, ironicamente compadecida, o seu gozo com eles: eles também chegarão ao clímax, mas, nem de longe conhecerão o que ela conhece. É justo. A recompensa possível para a relação escravizante entre ela e o instrumento do seu prazer.


Não sabe, Jacqueline não sabe que está morrendo e, pior, antes da morte o amante a abandonará, mudo de saudade das suas mãos apaixonadas, do seu toque instintivo, da volúpia da sua alma que apenas ele pode apaziguar.


 


Sandra B.


 


*Esse texto é uma divagação ficcional sobre a maravilhosa celista Jacqueline Dupré. Escrevi após assistir o dvd "Les Introuvables". Jacqueline nasceu em Londres, em 1945; toda sua vida foi marcada pela música e por relações familiares torturantes. Musicista excepcional, a crítica costumava dizer que ela não se apresentava como solista de orquestra alguma, mas a orquestra é que estava ali para acompanhá-la. Aos 23 anos, no auge da sua carreira, Jacqueline foi acometida de esclerose múltipla, doença auto-imune que aliena e destroi o corpo, além de impor dores cuja intensidade pode ser agônica. Jacqueline entrou em coma em outubro de 1987, ao som de sua própria gravação do Concerto para violoncelo de Schumann. Morreu aos 42 anos, transformada numa boneca torta, repetindo à exaustão: " A única coisa que sei fazer é tocar esse maldito instrumento".

domingo, 29 de maio de 2005

Anne Greene*


Eu estou morta. Eles me enforcaram, ainda posso sentir uma dor terrível no pescoço. Mas como isso seria possível se eu estou morta? Deve ser a tal da alma, que, afinal, existe mesmo e  o pior é que dói, a alma sente dor física, quem diria!


Morta, não há dúvida de que estou. Eu sei que saí da cela e caminhei uns três quilômetros debaixo de uma chuva gelada até o pátio do Castelo, posso me ver subindo na escada e gritando a minha inocência, o que, de fato, não adiantou nada, porque nem eu mesma sei se sou ou não culpada. Mas é quase certo que não sou, ou não era, já que estou definitivamente morta.


Estou morta e este aqui não é o inferno, então talvez eu não seja mesmo culpada; pelo menos não se parece com o inferno descrito pelos malditos Puritanos e está cheirando a asas de galinha fritas, o que me lembra que essa minha alma, além de dor, também tem fome.


O carrasco passou a corda no meu pescoço, isso é certo. E me empurrou da escada, aproveitando pra me apalpar a bunda, que nunca foi nenhum santo, esse filho de Miss B. E cantavam salmos, enquanto isso. Enforcada. Decerto que a brincadeira com o neto de Sir Thomas Reade não valia tanto, não valia minha vida e minha juventude, meu corpo bem fornido de carnes e o carmim das minhas bochechas. 


Quem imaginaria que o esfrega-esfrega com o neto do patrão acabaria tão mal? Castigo, castigo, quem mandou não dar a xoxota pra um aldeão qualquer, pra um homem da minha classe, para o ferreiro que vivia encompridando o olhar em cima da minha carnação macia? E nem me ouviram quando eu disse que nem sabia que dessa forma é que se faziam bebês. Se é que aquele “naco de carne” que me escapou pelas pernas, poderia ser chamado de bebê. 


E essa agora! Olha que parece a voz do meu irmão... a voz de Miss Rosamund...Parece dia de mercado, será que tanta gente assim acompanharia meu enterro? Porque, morta, estou. Olha que eu dava um braço pra poder contar para o Doutor Petty que a gente tem alma, sim, eles lá é que são incompetentes pra encontrar a talzinha! Ora, ora, que agora ela sabia muito mais do que aquele bando de profetas-do-mijo


Mas, que coisa... porque é que Deus põe “espada na mão de cego”? Pois se eu estivesse viva ia fazer um bem pra ciência e pros padres, contava pra eles que alma existe e é um tipo de corpo que dói, cheira, escuta e até fome sente. Mas também dizia que pelo visto é uma alminha só, não essa colméia de almas que eu escutei o Doutor Willis falando pro patrãozinho. 


Seja céu, seja inferno, o lugar aqui é bem estreito e... ai meu Deus, que será isso? Mas, olha se não é o balofo do tripeiro me pisando o peito, será que ele morreu também? Valei-me Deus, que o Dr. Petty e o Dr. Willis também morreram e não vai caber toda essa gente aqui! 


O Dr. Willis tá me esfregando o peito... Deve de ser o céu, o Dr. Willis e o Dr. Petty são tementes a Deus. Então, a minha almazinha está salva! Mas, porque é que eles vão me sangrar e esfregar terebintina no meu pescoço? Eu já morri mesmo. Apesar que, defunto é tudo gelado e de repente estou sentindo o calor do corpo dessa fulana que jogaram em cima de mim. 


Viva, viva, estou viva! O Dr. Petty me ressuscitou, o danado! Junto com o Dr. Willis. E não vão deixar os malditos Puritanos me enforcarem de novo, já se viu? Pois eu sou inocente, tão inocente que até a Providência Divina resolveu dar um sinal. E depois, o bebê nasceu morto, afinal, serviu pra alguma coisa a ciência! 


E se duvidar, ainda hei de enricar, já que toda gente quer me ver no caixão e agora eu vou cobrar ingresso: quer ver como eu ressuscitei? Paga. Porque os jornais estão falando só disso: “Anne voltou para casa, carregando consigo o caixão que ocupara, como um troféu de seu extraordinário destino.” 


Olha, é o meu extraordinário destino e virou até livro que o Dr. Petty mandou publicar e distribuir por toda Londres. Tem trinta e sete poemas falando da minha ressurreição! “Thus’tis more easy to recall the Dead. / Than to restore a once-lost Maidenhead.”** 


E ainda me caso com o ferreiro, apesar que depois de toda essa história, a minha xoxota podia aspirar companhia mais nobre...


 


 


Sandra R. S. Baldessin


 


 


*Anne Greene, enforcada pelo assassinato do seu bebê natimorto, foi ressuscitada pelos médicos Thomas Willis e Willian Petty, em Londres, no ano de 1650.


** "Assim se vê que é mais fácil ressuscitar os mortos do que restaurar a virgindade perdida."


Imagem disponível em: www.universohq.com/.../ 2003/n16102003_04.cfm


                                   



 

sábado, 16 de abril de 2005

Anete falando com seus botões


Por que eu deveria me preocupar com essas coisas? Há vinte anos, sim, me aplicariam eletrochoques... E eu, pobre de mim, teria que me conformar em ser uma prosaica professora de matemática, divorciada, ainda por cima.  É claro que as coisas mudaram. Mas, será que as pessoas mudaram? Os psicanalistas que se apressem para inventar outros distúrbios rapidinho: psicose e personalidade cindida já eram. Tudo isso, hoje, é encarado como criatividade, pode acreditar! Tudo o que precisamos é esse paraíso psicótico traduzido em bytes. Nele, somos tudo que sabemos ser e não nos atrevemos. Isadora Duncan, ressurreta, diamantes circundando o pescoço... Ou, quem sabe, Remédios - a Bela. É um mundo tão bom quanto qualquer outro. Eu diria melhor que qualquer outro. Principalmente agora, que a mídia inventou a mulher.A realidade não existe mesmo, não é isso que está escrito naquela revista científica? Eu sou uma ilusão, não somos o que pensamos que somos. Nesse caso, é melhor projetar a imagem de Nefertite, Aspásia, talvez. Melhor a Gisele mesmo, por que não? Gisele Bündchen. No fundo, no fundo, tudo se resume em aplicar o algoritmo certo... Mas, cadê a maldita caixinha do prozak? 


 


Sandra R. S. Baldessin


 


 


Imagem: "Dance of light"  - Olga Sinclair, 1999.


 


 


 


 

sábado, 26 de março de 2005

Desfeitos um para o outro*


Escreverei versos quando você partir. Lembro que perguntou-me se algum dia minha boca se arrependerá dos beijos com que nos devoramos. Não respondi. Você não pergunta para obter respostas e eu sempre respondo, muda, tudo o que você teme indagar.


Hoje as palavras não me interessam. Vê se cala essa boca e usa a língua como chave. É assim que se constrói um amor verdadeiro: com Astor Piazzola como fundo musical e gestos bailarinos se desprendendo dos corpos entrelaçados.


Talvez eu queime incenso, pode ser que eu dance; quem sabe, enfeitarei os cabelos com uma rosa vermelha, enterrando os seus espinhos na fronte. Certamente escreverei versos quando você partir.


Hoje, não. Sente-se aqui. Façamos o inventário da nossa história. Eu contabilizo os contras. Você, com esses olhos cheios de adeus, vai tentar me convencer que estou errada. E não venha me dizer que os nossos signos combinam, que gostamos e desgostamos das mesmas coisas, que eu nunca perco a classe, mesmo bêbada. Também não resolve ficar me acariciando as coxas enquanto fala.


Não diga que com você eu poderia enfrentar o destino com dinheiro no bolso. Prefiro contrair outros tipos de dúvidas. Não me ofereça a proteção da casa própria, nem me garanta descendentes saudáveis, espécimes pós-modernos aptos a  sobreviverem em nosso paraíso individualista.


Seja desleal e acrescente à sua lista de prós as lembranças da infância. O tempo em que empinávamos pipas, lado a lado, no mesmo campinho. Havia resgate para os nossos sonhos naquele azul todo se alastrando pelos nossos olhares. A felicidade sem ideologia de quando temos dez anos e ainda não visitamos as regiões do desejo. O tempo em que nunca ouvíramos falar em Marx, Baudelaire, Simone Weil e a nossa dor não aparecia nas fotografias.


 Não tenta colocar na balança essa entidade que criamos quando amalgamados além das palavras, esse estranho que se molda a partir da metamorfose dos nossos corpos. Esse animal, herdeiro da nossa luxúria, costurado às nossas peles, tecido de rendas líquidas.


Sobretudo, se esforce para não demonstrar o quanto você acredita que me ama; eu nego a você o prazer de me salvar da solidão. Evite despir-me procurando aquela menina que colecionava pedras, a mesma que se escreveu no seu corpo, tornando-o  guardião do selo de carne das tantas mulheres partejadas pós-você.


Desfeitos um para o outro, recuso-me a enumerar razões para dizer-lhe que se incorpore à chuva e saia pela janela. Tenho todas as incertezas que preciso para viver. Escreverei versos quando você partir.


 


Sandra R. S. Baldessin


 


*fragmento da novela "Cúmplices da flor", inédita.


Imagem: gif de Lady Utopia.


 


 

sexta-feira, 25 de março de 2005

sharon*


Sharon. Ô nome horrível, ou, talvez, eu que sou uma mulher horrível. A verdade é que esse sharon nunca que entrou em mim. Sabe roupa apertada, da marca cavalo dado não se olha os dentes? Pois é disso que tô falando.


O pai que me nomeou sumiu pouco antes d’eu completar cinco anos. Minhas duas irmãs mais velhas, sortudas, se chamam Elza e Selma, nomeadas pela nossa mãe. Eu não: carrego o nome de uma visão por quem o pai se apaixonou, uma tal sharon estóne. Já vi retrato dela nas revistas velhas qu’ele deixou pra trás quando partiu, seguindo uma mulher feita de carne, diferente daquela sharon de papel, diferente da mãe, feita só de trabalho e dor.


A sharon de papel era só o anúncio da insatisfação dele, e agora fico eu com esse nome que sugere mulher fina e perfumosa. Eu, Sharon, a gari que mal sabe assinar o nome, ô sina! E vê lá se mulher chamada sharon anda por aí co’as unhas roídas e esse cabelo ruim qu’eu puxei adivinha de quem? 


Queria trocar de nome, pois se nem brasileira, artista de novela, a tal sharon é; é gringa. Se era pra me dar nome de loira boazuda que ilustra capa de revista por que não botou logo véra ficher?  Pelo menos servia pro Cesinha, que foi meu primeiro namorado, escrever o nome certo no coração que desenhou na carteira da escola: Cesinha e Xaron... ô sina. A professora castigou mais por causa da ortografia do que por ter estragado o patrimônio do governo estadual. Se era pra ter nome de loira artista, por que não xuxa, que pelo menos se escreve com x? Assim não perdia o namorado.


Lá no cartório disseram que não pode não, trocar o nome. Pois o moço não disse que sharon é nome bonito? Que a mulher dele tá grávida e se for menina a pobre vai chamar sharon também?  Pelo menos bota com x, eu já fui logo aconselhando.


Meu sonho era ter nome de lúcia, coisa mais linda de nome. Ah, que se eu me chamasse lúcia nem me importava com essa vida miserável que a gente leva, com essa falta de tudo, com essa falta de vida na vida, que faz a gente ir existindo, existindo, até o dia que faz o contrário e acaba desistindo. lúcia representa luz e quem sabe com um nome desse, que só da gente dizer ilumina, eu faria a mãe ser o que o nome dela diz: Dona Felicidade.


Eu só tenho um único consolo: pelo menos não há de aparecer no meu túmulo, vê lá se gente como nós manda gravar placa pra enfeitar sepultura!


 


* Coletânea "Capitus?" , inédita. Registrada na Biblioteca Nacional.  


 


Imagem: disponível em www.http://web.ukonline.co.uk/sharon-stone/scanss/stone/sharon.jpg


 


 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

Manon*


Janeiro, fim de tarde. “Em São Paulo, quando chove, chovem carros”. Um poeta assim dissera. Concentrou-se, tentando recordar o poema – “E a água retoma o seu curso original: Anhangabaú, Sumaré, Pacaembu. Ruas onde eram rios...” A chuva não o preocupava, afinal, quando fechasse a livraria só teria que subir dois lances de escadas e estaria em casa.
A moça entrou abruptamente. Procurando abrigo contra a chuva que se intensificara, pensou. Bonita. Os cabelos, escuros e ensopados, cortados bem curtos. Ela sacudiu a cabeça, como faria um cãozinho, para livrar-se do excesso de água. Virou-se e olhou-o, ao mesmo tempo que estendia os braços oferecendo-lhe a pasta que trazia nas mãos.
- O senhor é um alfarrábio? Quer dizer, alguém que compra livros e documentos antigos? É isso?
Reparou nas mãos dela, nos braços magros, na camiseta branca que a chuva tornara transparente, colada ao corpo. Agora os olhos. Verdes. “Abismos de sedução onde cantam sereias”. Leu neles uma ansiedade quase dolorosa. Fez menção de pegar a pasta que ela lhe oferecia; no momento em que ia tirá-la de suas mãos, ela afastou-se, apertando-a de encontro ao peito.
- Eu não quero vender. Só gostaria que fossem avaliados. Quer dizer, o senhor pode fazer isso, não?
- Sim, eu compro livros e documentos antigos; posso avaliá-los também. Mas, primeiro preciso vê-los. Aceita um café?
Não esperou que ela respondesse; guiou-a à uma aconchegante sala, à esquerda de onde ficavam as enormes estantes de madeira, repletas de livros.
- O meu nome é Manon. Todo mundo acha estranho; é a personagem de um livro, entende?
Ele entendia. Observou-a colocar a pasta numa das poltronas e pegar a xícara; sorveu o café aos golinhos, as mãos trêmulas. Cruzou as pernas, magras e longas. A boca, essa era digna do nome que ela carregava: os lábios cheios, feitos para as taças de cristal, para as mais finas porcelanas, para conjugar os verbos da paixão. Manon Lescaut.**
Dezoito horas. O livreiro desculpou-se e foi fechar a livraria, acreditando que com ou sem chuva o entardecer em Moema é um dos mais belos do mundo. Enquanto isso, ela abriu a velha pasta e retirou do seu interior uns vinte livrinhos, pequeninos, parecidos com aqueles evangelhos distribuídos nos hospitais. Chovia, ainda.
De repente, arrependeu-se de sua empreitada; jamais deveria ter vindo, coisa de gente desesperada. Nunca teria coragem de vender o seu tesouro; experimentou uma angústia enorme só de pensar nisso: um passarinho batendo asas, loucamente, no interior do seu peito. Melhor morrer de fome, pensou.
As mãos apressadas recomeçavam a guardar os livros quando ele retornou e viu alguns dos livrinhos espalhados sobre a mesa; teve um sobressalto. Será? Percebeu-a assumir uma posição defensiva, olhar verde-trincheira. Ele entendeu, num relance, porquê dizem que a alma é caçada pelos olhos.
- Deixe-me vê-los... por favor! E já segurando um deles: - Sabia que existiam, mas nunca pensei que um dia os veria. O “Paraíso Perdido,” de Milton, a edição ilustrada lançada no século XVIII! Você tem todos os volumes? Eu não posso comprá-los, é claro, tudo que tenho não bastaria para tanto; mas posso falar com alguns colecionadores, muito discretamente, posso colocá-los no mercado.
No instante mesmo em que falava soube que ela não se separaria deles. Observou-a segurando os livros, seu toque era quase uma carícia. Viu a paixão acompanhada do seu mais fiel seguidor: o medo de perder. Ela balançou a cabeça numa negativa muda. Compreendeu-a perfeitamente.
Chovia. Indicando uma porta lateral, apertou a mão que ela ofereceu na despedida. “Em São Paulo, quando chove, chovem apocalipses de quintal.”
Manon aconchegou a pasta contra os seios, delicadamente. Lembrou-se que ainda lhe restava uma segunda opção. Cumpriria o destino de seu nome. Se tudo na vida tem preço, então seria justo fazer do corpo moeda sonante. Sob a chuva, São Paulo se lhe afigurou um imenso bordel.

Sandra R. S. Baldessin


Poemas citados: Quando Chove, Frederico Barbosa. (in:Contracorrente, 2000); Fragmento de Coelho Neto;

* Coletânea "Capitus?", inédita. .
** Manon Lescaut, romance francês, escrito por L’ Abbé Prévost no século XVIII e transformado em ópera por Puccini; Maria Callas, a Diva Gloriosa, realizou a interpretação mais aclamada da prostituta francesa.
Imagem disponível em: www.karenscollectables.co.uk/book_manon_lescaut.JPG

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

Leda*


Será, doutor, que existe algum lugar ao qual possamos ir e preencher um requerimento solicitando a vida de volta? Uma repartição qualquer, com uma moça entediada atrás do balcão; você paga uma taxa e recebe o formulário que deverá ser preenchido e assinado e... pronto! Possui a própria vida novamente sob custódia.
Diga-me você, que já estudou tanto, já ouviu centenas de histórias, existe esse tal lugar? Não. É claro que não. Isso não importa, já que facilmente posso criar esse paraíso psicótico...
Gosto que me olhe assim - tão atento e agradecido – pelo simples fato de que a louca sou eu. Mas, você meu caro, não sabe o que está perdendo, afinal, “imaginamos o que desejamos; queremos o que imaginamos; e, finalmente, criamos o que queremos.” Que mal pode haver nisso?
Mas, voltando ao que me aflige, exijo que me cure, sou a cliente, aquela que sempre tem razão... Não espere que eu me comporte com suavidade, mas, por favor, invada o meu mistério, ou será que... Você também tem medo das minhas trevas?
Isso, olhe as minhas pernas. Eu gosto de perceber que você me lê como mulher até o limiar do seu controle. Controle pode ser coisa de gente normal, mas, não necessariamente de gente feliz. Chega, chega de conversa fiada; eu sei que inquieto você, que na hora do banho você pensa em mim e que a única terapia ao seu alcance é um orgasmo solitário.
Pronto, falei a palavra mágica... SOLIDÃO. Ah! Quantas concessões uma mulher pode fazer à solidão..E eu fiz todas, é claro. Naveguei solidão adentro, encontrei-a em todos os leitos, abracei-a em todos os corpos que semearam o meu.
Você está assustado, vejo nos seus olhos... O mérito é todo meu por ter despertado a consciência da sua própria solidão.
Viver é uma travessia muito longa. Eu sei que você gostaria de medir a temperatura da minha pele, aconchegar-se ao meu seio. Eu me empenho para ser a sua mais irresistível fantasia. Vista-a! Eu ordeno!
A consulta está chegando ao fim e continuo sem nenhuma certeza... Você, como eu, está agonizando. Quer, também, a sua vida de volta?

Sandra R. S. Baldessin

* coletânea de contos "Capitus?" , inédita.
imagem: Freud. disponível em: http://members.surfeu.at/4all/freud.jpg

domingo, 13 de fevereiro de 2005

Peixão*


Caiu na rede é peixe. Na época em que eu era mocinha os homens usavam essa expressão para explicar porque se relacionavam com qualquer mulher que mordesse a isca. Não que precisassem de qualquer justificativa, eles eram homens e isso já explicava tudo. Para contextualizar a metáfora, eles nos chamavam de peixões e quase todos os rapazes tinham como hobbie a pesca artesanal: pescavam, mas não comiam. Comer, mesmo, só comiam as piranhas, que, naquela época, se diferenciavam das sereias de família por um detalhe significativo: os favores delas custavam mais barato e ninguém acabava com aliança no dedo, definitivamente fisgado.

* esse texto, embora tenha recebido um "tratamento literário", por assim dizer, é baseado numa das entrevistas realizadas com os velhinhos que participaram do projeto de história oral que analisa a presença feminina no espaço público em Rio Claro/SP. A senhorinha que gravou o depoimento que me inspirou a escrever esse texto é um ser humano maravilhoso, e a publicação fica como um tributo a ela: Dona Cotinha.

Imagem disponível em: http://www.studiobobs.com.br/173_SEREIA_PEDRAS.JPG


terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

VERA*


“Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância (...)
A falsa, (...) que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.”
Fernando Pessoa


Hoje, sei que andei grávida de uma coisa que nunca nasceria. Dentro do uterocárdio, alimentei-o com as mais saborosas mentiras que uma mulher pode contar a um homem. Tentativa de fazê-lo vingar, como diziam os antigos sobre a violência que é sobreviver. Um tempo em que a vida me parecia líquida e certa. Nos labirintos do meu corpo ocultei-o e a vida se resumia na posse.
Hoje, despossuída, relembro a fome de avelãs que tive dele. Mas, a boca já não se enche d’água (nem os olhos) e nem preciso fingi-lo nesse outro que me abraça. Perdi o paladar e acho até que o dom de chorar de saudade. Embora quem me conhece afirme que eu ganhei a minha vida de volta. É uma gente discursiva e séria, devem ter razão.
Às vezes, só às vezes, eu me pergunto se eles não percebem que eu inventei um dublê pra viver essa tal vida recobrada. Ela vive a vida que um dia eu vivera, enquanto a observo se movimentando dentro do meu silêncio. É bonita essa mulher, decidida a cumprir o meu destino de boa moça. Empenhada em realizar sonhos que sonharam para mim.
Hoje, não sonho e nem acredito, mas ela não permite que ninguém se dê conta disso. Vestida com as minhas incertezas, me disfarço na sua eficiência. Já não há bichos, sequer estrelas, no corpo dela. Às vezes, só às vezes, eu me pergunto se ninguém percebe que eu não sobrevivi, que é falsa essa mulher que vive a vida que finjo viver.
Eu gosto dessa mulher que me inventei e que se presta aos papéis que eu não suportaria representar. Contabilizando tudo, devo a ela muito mais do que a harmonia na mesa de jantar e o gozo mentido. Não fosse ela tão conivente com as minhas mentiras jamais estaríamos aqui, nesse civilizado almoço familiar, comemorando os meus (dela) sete anos de felicidade conjugal.
Não fosse ela tão ordeira e consciente dos seus deveres, não me vigiasse tanto, o fogo latejante do corpo que partilhamos poderia novamente se alastrar. O fogo que faria derreter o chumbo das pernas e, luz, talvez revelasse que a flor do desejo ainda brota das entranhas, poderosas suas raízes de avelã. Sentinela, pensando no futuro, essa mulher elabora um pretérito-mais-que perfeito negando-me até mesmo o direito à memória.
Hoje, estão todos felizes, brindando o meu retorno à normalidade, ao universo das pessoas que sabem fazer exatamente o que se espera delas. O sorriso cicatrizado no rosto, ela-de-mim também levanta a taça, que, por estratégia de segurança, contém suco de uva. In vino, Vera.

Sandra R. S. Baldessin

*Coletânea "Capitus?" (inédita)
Imagem: Série de autofotografias "Outras de mim" (fev.2005)

domingo, 30 de janeiro de 2005

pela fresta do olhar


Eu vi quando ele acariciou a própria garganta com a lâmina, vi os olhos dele e, digam o que disserem depois, eram olhos tranqüilos, daquela espécie de tranqüilidade que os homens demonstram quando pensam que decidiram alguma coisa, quando se entendem no controle, os tolos. Riscou de leve o pescoço e imediatamente se formou uma bela gargantilha vermelha. Examinou-a na frente do espelho e, por descuido, encontrou o próprio olhar refletido. Vi os rubis se desprendendo do pescoço, gotejando, brilhantes, contra o fundo branco da pia. Ele ali, perdido na própria mirada. A cantiga, acho que o esperava oculta no olhar, começou a escorrer da sua garganta: “Se essa rua, se essa rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar...” A sua voz não me impediu de ouvir os passos na escada. Ah, ele também escutou o toc-toc dos saltos na madeira. O som da chegada daquela que caminha sobre as pedrinhas de brilhantes. Certo, foi o som que o fez lembrar que já estava morto mesmo. O cinzel de lapidar rubis descobriu o segredo da sua carne e a melodia não estava lá, apenas o seu aroma, denso, quente. Da cor do grito dela, da dona do toc-toc. Ela me olhou como quem pede explicação, os rubis se dissolvendo sob seus pés. Não lhe direi nada. Os gatos também não têm todas as respostas.

Sandra R. S. Baldessin


imagem: Rubis Stern. disponível em: www.asoka.de/BabbaGold/

domingo, 19 de dezembro de 2004

Cyberjúlia*


Júlia já não me é. Desse lado da máquina, observo-a enquanto se afasta. O seu olhar, seu sorriso, atravessam a tela fria. Como responder a pergunta: deseja salvar a figura antes de fechar a janela?
Todos os dias o mesmo medo agarrando-me pelo pescoço, esse iceberg nascendo nas vísceras, congelando meus membros. Agora, nesse exato momento, Júlia não está mais presente, dobrou a esquina do ciberespaço escapando ao meu desejo, instaurando em minha vida o tempo da espera. Tudo nela é suposição e linguagem. Júlia, substantivo abstrato, existe para além de mim mesmo, indefinidamente!
Preciso do socorro imediato de uma bebida qualquer. O seu olhar, aprisionado na memória do HD, me revela as milhares de mulheres que ela me quer ser. Será aquela que eu escolher. Semana passada veio na pele de Açucena, açucena-do-mato, esclareceu. As palavras, as palavras são meus braços, minha boca, meu pênis ereto. Só tenho palavras para acariciá-la, com palavras eu a penetro e a faço minha.
Há uma mulher de carne, ossos e sangue, ao alcance de minhas mãos. Basta que eu escolha a opção: desligar o computador; basta que eu abra a porta do meu quarto, basta que... Sim. Eu posso acordá-la. Posso transar com ela, chamando-a “Júlia” , silenciosamente. Posso, mas não quero.
A bebida me permite relaxar, embora desate o fluxo da memória. Há oito meses estamos juntos. Júlia, a máquina e eu. Ela não acredita, mas, quando a conheci, era a primeira vez que eu entrava num “chat” , uma sala de conversas online. Bem que a minha avó dizia que a curiosidade matou o gato.
Eu usei o nick “professor” : é o que sou e desde a primeira vez foi a imagem do que suponho o meu eu verdadeiro que projetei para ela; justamente o nick atraiu-a. Professor de quê? O seu nick: figo-da-índia . Seria sempre assim, feito fruta ou flor, que eu a encontraria.
Quer teclar comigo, jasmim-do-imperador? Conversamos, ou melhor, teclamos por mais de um mês antes que eu a convencesse a me dizer seu nome. Ela me deu uma lista com sete nomes, disse-me que escolhesse um. Decidi que seria Júlia. Telefona pra mim, por favor, uapê-da-cachoeira! Preciso ouvir a sua voz, andá-açu, meu taiuiá...
Ouvir-lhe a voz a tornaria mais real ? Indagou-me. Perguntei-lhe se era botânica, bióloga, uma velhinha de 70 anos apaixonada por jardins e pomares? Não, nada disso. Apenas alguém escrevendo uma dissertação de mestrado sobre as relações virtuais. O chat, seu campo de pesquisa. E eu, minha dilênia, meu sapatinho-do-diabo, seria eu sua cobaia?
Não que eu recusasse o papel! Que ela praticasse a vivissecção, que manipulasse, anatomicamente, as minhas emoções, transformando-as em capítulos da sua tese. Só não me diga adeus, minha marianeira, meu amor com gosto de pimenta-do-mato. O medo de pressioná-la e desse modo perdê-la, obriga-me a enviar-lhe apenas um e-mail por dia: flordeseda@nutte.com.br .
Telefonou-me, uma madrugada. Só podia ser setembro. Amor-perfeito, identificou-se. A sua voz, carregada de açúcar-mascavo, arrastou lembranças de eu-menino. Conte-me, onde você existe? Em que estado, em qual cidade a sua imagem desencarnada da máquina se incorpora a um corpo de mulher?
Foi então que me disse porquê resolvera manter-se em contato comigo. Ora, na adolescência estivera apaixonada por um professor de história , como eu. Além do mais, ela já teclara com centenas de chatmaníacos e nunca antes encontrara um que houvesse lido James Joyce, que cultuasse Mário Faustino, que amasse Lispector, como ela. Motivos suficientes, não é mesmo?
Enviou-me uma fotografia, isso foi antes que começássemos a fazer amor e depois do primeiro telefonema; a essa altura eu não precisava do reforço de um retrato, estava completamente envolvido. Tampouco foi a descoberta do seu sorriso, brotando de uma boca em floração, a cor dos cabelos, a exposição das suas pernas e braços no monitor que desencadearam o meu desejo. “Desejo físico da alma”, já definiu o poeta Fernando Pessoa.
Flor-da-paixão, toco você, acaricio os seus braços, beijo a sua boca, tiro o seu vestido, flor-de-amores. Oh, meu deus, eu quero o calor da sua pele. Sim... eu sinto o seu toque, me abraça., tâmara-do-deserto. Agarrados um ao outro, digito palavras entrecortadas que lhe dizem o que estou fazendo com o seu corpo. Você escreve, ofegante: vem.
Temos à nossa disposição todos os verbos. Reinventamos a linguagem dos sentidos. Eu a penetro com todas as letras, gozamos em todos os dialetos! Isso, descansa, minha fruta-de-anel, fica aqui, pertinho de mim, marquesa-de-belas...
Isso é só o que tenho. Errado. Isso é tudo o que preciso. Além desse medo mesclado à certeza de que uma sexta-feira qualquer Júlia não virá. Parece-mas-não-é, o nick que usou hoje, exalava o perfume do adeus anunciado.
Fixando intensamente os seus olhos que não me vêem, apanho uma das margaridas no vaso sobre a escrivaninha. Com delicadeza, começo a desfolhá-la: bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer...

Sandra R. S. Baldessin

*Coletânea de contos "Capitus?" -2003
** imagem captada em wwww.decembergallery.es.htm

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Aprendiz de Alice


Foi caminhando em direção à música. Não... não fora a música que primeiro o atraíra e sim o perfume. Os aromas de flores e ervas mesclados. Ladeou o canteiro de cravíneas, aproximando-se cada vez mais da casa de onde fluíam sons de risadas e conversas. Aquelas vozes! Há quanto tempo não as ouvia.
Sabia que ao atravessar a soleira da porta Alice viria ao seu encontro. Primeiro,chegaria o seu sorriso, a boca de tangerina, que ele se apressaria em devorar. Imediatamente ela colocaria em suas mãos alguma bebida gelada, os olhos pregados nos dele, tanto que ele experimentaria uma vertigem verde, como se matas e horizontes o penetrassem pela fenda do olhar.
O salão iluminado, o assoalho de tábuas compridas e brilhantes, enceradas até à exaustão, os vasos de cristal. Que cenário seria este?
Não se deteve na pergunta pois Alice já o chamava para dançar; um bolero... Por qual fresta do passado escapara aquela canção? Segurando as mãos dela viu de relance o anel de noivado, a esmeralda solitária que lhe oferecera há tantos anos atrás. Impossível!
O calor do corpo de Alice interrompeu suas reflexões. Meu Deus! Com que paixão ele a amava. A condição de noivos permitia que ele a abraçasse mais ousadamente, o seu próprio corpo submetido à tensão de um desejo quase insuportável. E Alice, plena da música, o rosto colado ao seu. Inquieta!
Ele observava, perplexo, o desfile dos rostos familiares das pessoas com as quais convivera por tantos anos: Tia Inácia, a solteirona que nunca abrira mão dos vestidos enfeitados e juvenis; Aluísio, com seus pulmões fracos, jamais tirava o casaco; os gêmeos, seus irmãos mais velhos; repentinamente, avistou-a sentada na poltrona, o eterno xale cobrindo as pernas, o olhar incisivo, fixo nele. A bisavó de Alice, D. Conceição. Comia canapés, mastigando-os devagarinho, como fazem os velhos.
“Não se case com ela. Alice possui o sangue rascante como vinho...o peito inquieto; ela ainda não sabe disso, apenas pressente sua própria fúria.”
Conselhos vãos. Quantos anos depois lembrara-se deles? Sem arrependimento.
Fora maravilhoso perder as esperanças ao lado dela. Fiel ao seus próprios anseios, ela o assustou desde a noite de núpcias quando, ao invés de dar, tomou.
A natureza, sábia, negou-lhe os filhos que ele tanto desejava, mais como uma forma de torná-la mais sua. Sua? Os cristais tilintando, a esmeralda brilhando no dedo delicado.
Demorou a entender que havia mais Alices do que as que poderia compreender, mas amou-as, todas elas, com uma ternura plena de renúncia. Dormia com uma, acordava com outra. Dormindo, ainda não era dele, embora o corpo abandonado ficasse à sua mercê por algumas horas. Ele mesmo não adormecia sem prendê-la (o seu corpo inanimado), agarrando-a pela cintura sempre esguia.
A primeira vez que ela cortou os cabelos bem curtos acreditou que finalmente partiria. Temeu, sabendo que a presença de tal ausência o sufocaria, implorou que ficasse, não precisava explicar mais nada, nunca mais ele faria perguntas, que mentisse, que fosse infiel, mas pelo amor de Deus, não levasse a boca de tangerina, o jeito de virar o pescoço, a risada de menina, não levasse para longe dele a vertigem verde do seu olhar. Ela apenas sorriu, abrindo braços e pernas para agasalhá-lo e acabar com seus medos. Conselhos vãos.
A música e o perfume. As vozes rompendo as barreiras do dia de ontem. Longos os anos das Alices, umas sucedendo-se às outras, procissão interminável. Amou nela todas as mulheres que poderiam tê-lo feito feliz, mas não com o tipo de felicidade desesperada que ela lhe ofereceu.
O aroma das flores mesclado com ervas. A esmeralda, brilhando ainda, nos dedos que se fizeram frágeis e trêmulos; nunca estranhou os cabelos brancos dela, a teia de rugas finas que se formou em torno dos olhos verdes, era mais uma Alice para adorar. Agora sabia, com certeza, que não lhe seria dado compreendê-la.
Morta, desejou-a com uma saudade infinita. Levou consigo a esmeralda para o aconchego da terra. Que cenário seria este?

Sandra R. S. Baldessin


* Esse conto foi um dos vencedores do Mapa Cultural Paulista - Categoria Literatura/Contos, 2002. Consta de uma antologia publicada pela Editora Universitária de Lisboa.
* imagem: obra do artista mexicano Ariel Pañeda Macías; disponível em www.urocirugia.com/cultura.htm

domingo, 14 de novembro de 2004

Maxine *


Escreve o meu nome direito, vai. É Ma xi ne, deixa ver se escreveu certinho, isso, Maxine. Pra falar tem que ser assim: mac cine. O sobrenome não tem que escrever, não. É da silva, as minina aqui da rua é quase tudo da silva, tem lorraine, michele, suellen, mas se for ver no registro do cartório é tudo maria aparecida. Eu não. Olhaí meu RG, viu? É Maxine.
Minha mãe, coitada, que casou virgem, deu pra filha menor o nome da puta de um filme que ela gostou, coitada, ficou com pena. De mim não tinha pena, se soubesse que eu caí na vida, minha mãe, coitada. Teve treze filhos: tudo jão, zé, Cida, tudo do Silva, o Silva que levou de brinde o cabacinho dela, além de conseguir alguém pra lavar suas cuecas de graça. Empregada, costureira e o que mais ele precisasse.
Viu que esse nome serviu de alguma coisa, não precisei inventar outro na hora de entrar na profissão. Mãezinha acertou no nome, acertou na receita também, que você pode olhar bem, não vai ver outra gostosa como eu por aqui, não. É mistura de italiano com caboclo, que minha mãe, coitada, era filha de caboclo e meu pai veio de gente italiana e portuguesa; italiana era minha avó Adolorata. Essa sabia odiar! Odiava mãezinha que enfeitiçou o filho querido dela com seu cheiro de terra molhada.
Foi dela que me vieram esses olhos clarinhos. A cintura fina e as coxas grossas vieram de mãezinha, coitada. O olhar não faz diferença na carreira de puta, mas as coxas, essas ajudam. Já o vô, Joaquim da Silva, gostava de nós tudo, mas não mandava nada, que o pouco dinheiro que tinha era dela, da nonna. Nonna dos outros netos, pra ela a gente fedia, era tudo vira-lata, cria de cachorro de raça com cadela de rua, mas minha mãe, coitada, casou virgem.
Não pense que estou na vida por falta de opção, como se diz por aí; eu tenho segundo grau, podia ser balconista, auxiliar de alguma coisa, podia. Podia até casar com um sujeito que depois de uns anos ia virar bêbado que nem meu pai e acabava me comendo no escuro e de graça. Isso é que não.
Tá sentindo meu perfume? Acha que balconista podia andar por aí com cheiro de mulher francesa? E depois, meu destino veio selado nesse nome: Maxine. No começo foi duro, pode escrever aí, eu tinha 18 anos e acreditava no amor. Achava que amar era quando a calcinha ficava molhada toda vez que o Nelson, filho da freguesa de roupa lavada da minha mãe, me abraçava e enfiava a língua na minha boca.
Tesão, só tenho por dinheiro. O sujeito pode ser velho, novo, barrigudo, careca, pode feder, pode me pedir a coisa mais estranha, e pode crer que pedem. Pagou, leva. Lembro da mãe, coitada, dizendo que a Maxine do filme falou para o galã: Eu não faço amor, faço dinheiro. Ela achava romântico isso, porque era mentira, porque a tal Maxine tava apaixonada pelo cara.
Mas, não essa Maxine, que assistiu de camarote as porradas que a mãezinha levava; culpada, culpada de ter acreditado no amor. Mas ela tá morta, que descanse em paz, coitada. E a avó Adolorata continua viva, que força não tem o ódio, me diz? O senhor tem certeza que o programa, a reportagem passa lá no interior de São Paulo também? Porque eu quero que ela veja a vira-lata na televisão. Vai, filma bem as minhas coxas e a minha cara lavada, que eu tirei a maquiagem pra ela me reconhecer, ela gosta desses programas de repórter.
O melhor homem que tive até hoje, e já tô na rua faz uns 15 anos, foi uma mulher. Eu vivi com ela uns tempos, dava aula na universidade e tinha dois filhos, tudo homem feito. O único homem que me amou e cuidou de mim. Quer saber como eu fiquei sabendo que ela tava morta? Num jornal velho, jornal de embrulhar verdura na feira, jornal do mês retrasado. Eu pensei que ela tivesse me abandonado, mas mataram ela num assalto. Foi quando eu descobri que ainda não desaprendi de vez a amar...
Não tenho mais nada pra contar, a não ser o dinheiro que o senhor vai me pagar pela entrevista, ou tá pensando que vou mostrar minha cara na televisão de graça?

Sandra R. S. Baldessin


* Este conto integra a coletânea "Todas elas" - inédita.
** Fotografia de quadro do artista Toulouse Lautrec; captada em: www.hstech.org/.../ setdsn/museum/met_photos.htm

domingo, 24 de outubro de 2004

Senhora de todos os aromas


Chegando o mês de outubro. Se tudo fosse como antes, outubro certamente traria os feitiços olorosos de abuelita. Jamais sentir, novamente, aqueles aromas... Essa é a verdadeira saudade. Sólida ausência do desejo mais volátil.
Saudade que me conduz pelo nariz. A receita do licor, que depois de pronto cruzava o oceano, não poderia ser repassada para outra pessoa senão para a filha primogênita; essa jurava nunca compartilhá-la, nem mesmo com as irmãs mais novas.
Do líquido marrom dourado, espesso, resultante das alquimias olfativas de abuelita, não bebíamos sequer uma gota. Era vedado, a quem fazia, provar. As vizinhas surgiam de todo lado, atraídas pelo aroma. Abuelita assava intermináveis fornadas de pão, tentando, sem sucesso, diluir “aquele” aroma, mascará-lo, impedir que se alastrasse despertando um desejo que não seria satisfeito.
As botellas, contendo o licor preparado em nossa casa, seriam acondicionadas em caixas e enviadas para um país que conhecíamos de nome e por fotografias, apenas. Cruzando dezembro, e o imenso oceano, viriam as nossas botellas, repletas do licor preparado por mãos desconhecidas, numa cidade também desconhecida que, agora sei, é chamada pelo nome de um famoso poeta: Lorca. Ah, quando a rolha da garrafa era retirada!
Era a terra, traduzida em grãos do mais puro café; era muito mais: o cereal maltado espalhando na casa os campos milenares de Al Maheda, fertilizados pelo sangue dos cruzados espanhóis; mais do que isso: todas as especiarias mescladas com a doçura das mãos sagradas das mulheres da família: interpretação de deus.
Da botella, o licor derramava-se em pequenos cálices (eles ainda existem). Segurávamos os cálices com as mãos em concha, inspirando profundamente, várias vezes. Assim, aprisionávamos o mito nos alvéolos, desde bem pequeninos.
Depois, sorvíamos, ritualmente; se na ocasião houvessem recém nascidos na casa, também eles teriam a ponta do nariz e os lábios molhados com o líquido. Abuelita – senhora de todos os aromas - repetiria orações e sinais que condenaram à fogueira as suas ancestrais.
Outubro, hoje, é saudade. E mais: é a dor funda de arrancar um nome pela raiz e nunca mais vê-lo florescer. Consolo possível é saber que a lenda, perfumado extrato de nossa história, prevalecerá, fragrante, por todas as gerações.



Sandra R. Sanchez Baldessin


* Castillo de Lorca, cidade onde nasceu abuelita.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Mil e uma noites

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Mil e uma noites

Uma homenagem a Nélida Piñon, escritora, entre outros tantos, que me ensinou a ter uma relação de desejo e prazer com a leitura.

Onde a pulsão de morte pede o gozo absoluto, a criação literária propõe o gozo estético; onde a pulsão pede o fim de toda a tensão vital, a literatura renova o jogo tenso entre a falta de sentido e o prazer da significação.
Maria Rita khell

Nélida me conta histórias sobre mim. Coisas incríveis que me aconteceram num tempo também criado por ela.
Primeiro, nós nos amamos. As mãos de Nélida são ela todinha... Mãos que aprendem o corpo da gente feito mapa de viagem. Ela nunca fecha os olhos, e quando goza eu descubro o endereço do éden.
Uma mulher como essa você não encontra: acontece na sua vida, como um cataclismo. E você fica como eu, sem antes nem depois, vivendo no presente decretado por ela. Não sei, mas penso que deve ser parecido com estar morto...Talvez, com não ter nascido ainda.
Depois, nua e aromática feito fruta que se come no pé, tece os meus enredos.
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Eu não sabia, mas nasci milhares de anos atrás. No momento mesmo em que passava pelo túnel do seu corpo, a minha mãe cantava, guiando-me na escuridão entre o nascer e o nãoser. Rompido o aconchego do útero, paga a oferenda de sangue, a mãe ensina-me o caminho do seu leite.
Menino, transito no horizonte. Tudo ali é fronteira e os bichos que me habitam correm livres pelos campos. Há música, sempre, nesse lugar que não é onde; e sou o instrumento - tudo me toca. Todos os cheiros são o meu cheiro e exalando-me assim, penetro a essência das coisas.
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Já vivi em cavernas. Inscrevi na pedra o texto do meu mundo. Atravessei a vida sem sabê-la continente. Persegui o sol, caçador e presa. Coletei sonhos quando não me concebia homem. Caminhei durante séculos e tive medo. Esse medo que sobreviveu nos genes dos meus filhos.
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Também houve um tempo em que fui árvore. Amantes se entregavam um ao outro sob a minha sombra e depois me comiam, traduzida na doçura dos frutos. Crianças subiam pelos meus galhos, as suas risadas perpassando minhas folhas. Oculto pelo meu tronco, um homem tocaiou seu próprio irmão - o sangue atraiçoado regou minhas raízes...
Os homens, limitados pelo dia, passaram por mim. Eu permaneci até que a civilização perdesse a visão do sagrado.
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Já fui rei, monge, escravo. Guerreiro, lutei as lutas dos outros e perdi só a mim mesmo. Tive mulheres, ou pensei que as tivesse – algumas me possuíram a alma, outras, subjugaram meu corpo. Aquelas que amei subjugaram-me a alma enquanto possuíam o corpo.
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Todos os dias amanheço de olhos fechados. Gosto de procurá-la com o nariz. É como acordar na floresta. Respiro-a profundamente. Depois de aprisioná-la nos alvéolos, estendo os braços; as mãos, tateando no escuro, traçam a cartografia do seu corpo-planisfério.
Concentro-me para ouvir os seus sons de seda e pedra. Só então vou abrindo os olhos, devagarinho. Nélida transborda da cama. Toda pele e letra.
Nesse exato momento percebo que sou todos os personagens nomeados por ela e descubro que a minha verdade é tão somente uma construção de linguagem.

Sandra R. S. Baldessin