domingo, 19 de fevereiro de 2006

Lânia e Lisíope


Description:
Gosto muito de contar esta lenda; faz parte de uma coletânea que estou reunindo sob o tema "Histórias da Paixão".

Ingredients:
A Lenda de Lânia e Lisíope

(Versão autoral de Marina Colasanti)

Onde os oceanos se encontram, aflora uma ilha pequena. Ali, desde sempre, viviam Lânia e Lisíope, ninfas irmãs a serviço do mar que, no manso regaço da praia, vinha depositar seus afogados. Cabia a Lânia, a mais forte, tirá-los da arrebentação. Lisíope, a mais delicada, cuidava de lavá-los com água doce da fonte, para depois envolvê-los nos lençóis de linho que juntas as irmãs teciam. Juntas, também, elas os devolviam ao mar, para sempre. Nessa tarefa que nunca se esgotava, as irmãs passavam os seus dias, sem trocar muitas palavras entre si.
Foi num desses dias que Lânia viu que as ondas traziam o corpo de um afogado, que se aproximava flutuando; entrou nas ondas para apanhá-lo e, agarrando-o pelos cabelos, conseguiu traze-lo até a areia. Preparava-se para chamar Lisíope quando, ao virá-lo com o rosto para cima, percebeu que se tratava de um homem jovem e belo. Sentiu-se tão atraída que resolveu ela mesma lavar o sal de seu corpo com água doce e, usando seu pente de concha, desembaraçar os seus cabelos. Em seguida, começou a envolver o corpo do homem com o lençol, mas, sentiu uma dor tão profunda! Percebeu, então, que estava apaixonada.
Não, ela não devolveria aquele moço, pensou, decidida. E rápida, antes que Lisíope chegasse, correu para um língua de pedra que estreita e cortante avançava mar adentro e pôs-se a chamar em voz alta: “Morte, Morte, venha me ajudar!”
Sua voz penetrou as profundezas e, num átimo, sem ruído algum a Morte saiu de dentro d’água. Lânia, então, suplicou ansiosa: “Morte, desde sempre aceito tudo que você me traz, trabalho muito sem nada pedir em troca. Mas, hoje, em troca dos tantos que já devolvi, suplico sua generosidade e lhe peço que me dê este homem, pois meu coração o escolheu.”
Impressionada por tamanha paixão, a Morte concordou com o pedido de Lânia e fez questão de instruir: “Na maré vazante, você deve colocar o corpo do homem sobre a areia, com a cabeça voltada para o mar, pois quando a maré subir, tocará seus cabelos com a primeira espuma e nesse momento ele retornará à Vida.” Lânia fez tudo como a Morte ensinou e assim aconteceu – o homem abriu seus olhos e um lindo sorriso.
Mas, em vez de sorrir só para ela, que o amava tanto, desde o início o seu olhar e o seu sorriso procuravam por Lisíope. Lânia percebia e fazia de tudo para afastá-lo da irmã, mas não adiantava. Não resolvia enfeitar-se, cantar com sua belíssima voz acima do ruído das ondas. Quanto mais exigia, menos ele a satisfazia. Quanto mais o buscava para si, mais à outra ele pertencia.
Lânia estava sofrendo terrivelmente e, um dia, antes do nascer do Sol, ajoelhou-se sobre uma pedra na praia e chamou novamente: “Morte! Morte! Venha me atender.” E quando Aquela que Guarda Silêncio chegou, perdida em pranto e cheia de raiva Lãnia suplicou que atendesse apenas o último de seus pedidos. Que levasse a irmã, e nada mais ela desejaria.
Aquela que Guarda Silêncio deixou-se seduzir pela força do ódio de Lânia. A Morte concordou com sua súplica e instruiu: “Você deve deitar a sua irmã sobre a área lisa da maré vazante, com os pés voltados para o mar; ao primeiro beijo do sal das águas, Ela a levaria.
E assim foi. Lânia esperou uma noite enluarada e convidou Lisíope: “A noite está tão linda, minha irmã, por isso preparei a sua cama junto à brisa, no lugar mais iluminado pelo luar”. Em seguida, sorrateira, esgueirou-se até uma árvore que crescia na beira da praia, e subiu até o primeiro galho, escondendo-se entre as folhas. De olhos bem abertos, esperaria para ver cumprir-se a promessa.
A noite, porém, se fez longa. A brisa trazia o perfume inebriante dos jasmins e o suave marulhar do mar. Lãnia adormeceu. Enquanto Lânia dorme na árvore, dorme Lisíope perto d’água. Um raio de luar despertou o homem, chamando-o para fora, para desfrutar a beleza da noite. O apelo é tão irresistível, ele se levanta e sai da caverna. Estonteado pelo perfume dos jasmins, caminha vagueando pela praia e encontra Lisíope adormecida. No sono, o rosto dela parece fazer-se ainda mais doce, boca entreaberta num sorriso.
Sem ousar despertá-la, o homem se deita ao seu lado. Depois, bem devagar, estende a mão, até tocar a mão delicada que emerge do lençol. Cresce o Amor no seu peito. Na noite, a maré sobe. Já era dia quando Lânia, empoleirada no galho, despertou. Luz nos olhos, procurou na claridade. Viu o travesseiro abandonado. Viu o lençol flutuando ao longe. Da irmã, nenhum vestígio. Pensou consigo: “A Morte cumpriu o trato”. Desceu correndo da árvore para encontrar o seu amado.
Mas sua alegria não durou muito. Seus olhos caíram sobre a areia fina onde ficara gravada a imagem de dois corpos deitados lado a lado. A maré já havia apagado os pés, breve chegaria à cintura. Mas, na areia molhada desenhava-se a marca das mãos unidas, como se à espera das ondas que subiam.

Directions:
A lenda faz parte do imaginário veda e depois foi apropriada pela Mitologia Grega.
imagem: "Lânia e Lisíope" - Disponível em www.margencero.com


sábado, 18 de fevereiro de 2006

Excesso de realidade



A última coisa que poderíamos afirmar sobre os reality shows, do tipo BBB e outros que estão infestando a programação das redes de tevê mundiais, é que apresentam um excesso de realidade. Certo?


            Errado. Tomando como exemplo o BBB, embora saibamos que as ações e reações são muito bem articuladas para dar a impressão de espontaneidade, além da manipulação cada vez mais explícita da opinião pública, através da edição, sob um aspecto fundamental o BBB apresenta sim um excesso de realidade.


            Oculta sob a capa de diversão medíocre, o BBB valida os ideais perversos que norteiam a forma dominante de convivência nas sociedades contemporâneas: a competição. Já é questionável que a competitividade seja aclamada como a melhor qualidade que um ser humano possa ter. Sem maiores reflexões, muitos formadores de opinião, sem falar em pais e professores, estimulam o comportamento competitivo reafirmando a visão do mundo como um campo de batalhas onde sempre haverá vencedores e perdedores, sendo a medida do triunfo exatamente a mesma do BBB: o sucesso financeiro.


            No Big BrotherBrasil, para atingir a meta e ganhar um milhão de reais todas as estratégias (ou seria melhor dizer artimanhas?) são incentivadas e válidas. É preciso seduzir e conquistar supostos amigos que, ocasionalmente, serão descartados porque já não servirão ao interesse supremo. É preciso escolher os amigos certos, aqueles que têm popularidade, que podem contribuir para impulsionar a sua própria trajetória. O lema essencial se traduz por: não confie em ninguém. Parece familiar?


            Às vezes, me fica a impressão de que não sabemos o que estamos produzindo, como sociedade, quando louvamos e estimulamos estes comportamentos; quando não reprovamos explicitamente os atos de “passar a perna nos outros” ou “puxar o tapete” dos parceiros. E, depois, ficamos horrorizados com as reportagens de jornais e tevês que dão conta do número crescente de jovens ingressando na criminalidade ou na prostituição, como “método” alternativo para atingir o tal sucesso financeiro. Ah, mas esses são os “outros”, não tem nada a ver conosco, nós temos princípios!


            O imaginário coletivo está impregnado pela lógica do mercado: produzir, consumir, dominar. Este é o princípio gerador das mais destrutivas forças responsáveis pela devastação ecológica, pela violência, pela miséria. Forças que não sabemos como conter.


            Se continuarmos encorajando este modelo de convivência, que o BBB reflete perfeitamente, não obteremos resultados com as campanhas pela cultura da paz, pelo desarmamento, pelo despertar da consciência ecológica, pelo fim do trabalho infantil, etc. Estamos tentando fechar a porta depois que o ladrão já entrou.


            Existem muitos modos de olhar para esse laboratório social que é o BBB. Para além da mirada superficial, quem sabe permitiremos que este excesso de realidade gere em nós uma grande inquietação, ilumine as nossas consciências, antes que sejamos, todos, mandados para o paredão. 


 


Sandra B.


 


imagem: "Realidad" - Disponível em www.margencero.com


 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Mágoa


Há momentos

em que afloras:

lembrança líquida.

 

Gotejas alcalino

desde os mares

oblíquos:

portal que se

abre para dantes.             

 

Pisco os olhos e                                   

já não és mais que

(m)água.

 

Sandra B.

domingo, 29 de janeiro de 2006

Clímace


quando me tocas

um pássaro germina

nas entranhas

 

tua boca acorda

canários insuspeitos que

me habitam as células

 

à deriva dos ossos

meu corpo estranho de si                                  

pulsa trinados  atávicos

 

Sandra B.

 

imagem: Bandoneon - Coleção Le Tango, de Maria Amaral, 1999.

 

sábado, 21 de janeiro de 2006

Devagar e sempre...


Devagar se vai ao longe. Quem se lembra dessa expressão? Lembro-me de tê-la ouvido muitas vezes, quando criança. Na contemporaneidade esse ditado soa falso, pois estamos cada vez mais habituados a confundir velocidade com eficiência. A velocidade tornou-se um diferencial de qualidade, símbolo da tecnovida (se me permitem o neologismo) e deusa da sociedade consumista, que deseja tudo “pra ontem”.


Ficou na lembrança o tempo remoto em que era possível pautar a vida pelas necessidades: comer quando se tinha fome, dormir quando nos sentíamos cansados. Coisas tão banais para os nossos antepassados, mas, hoje, são privilégios reservados apenas aos bebês, pois mesmo crianças bem pequenas já estão sujeitas à tirania da velocidade.


É estranho pensar que as novas tecnologias planejadas para poupar o nosso tempo como transportes, telefonia, computadores e internet que colocam o mundo à distância de um clique, só fizeram com que pisássemos mais fundo no acelerador: a pressa e a urgência determinam a nossa vida e, supostamente, a nossa competência.


Perdemos a noção do passar do tempo e, entre o estar e o partir não há mais do que míseros nanossegundos. O filme da nossa vida está passando cada vez mais rápido e não demora muito o inevitável “The End” colocará um ponto final numa existência que tem tudo para ser rica e significativa.


Quase sempre a pressa é inimiga da memória, da tradição, portanto, além de nos matar também destrói a nossa herança cultural; afinal, para quê sentar em círculo e relembrar lendas familiares ou fatos históricos se podemos inserir um dvd no aparelho e deixar as crianças entretidas nas horas vagas, enquanto poupamos nosso precioso tempo?


O ano 2005 chegou ao final e quantos não afirmaram que nem o viram passar? Felizmente, eu vivi 2005. Ficou marcado nos bons livros que li como “Devagar”, de Carl Honoré, que nos ensina os princípios da filosofia do devagar; nos filmes que revi como Persona, obra prima de Bergman (que perdulária! Perdendo tempo vendo reprises de filmes antigos!); nos momentos de reflexão que precedem a escrita; nas risadas em companhia dos amigos; nas caminhadas pelas ruas da minha cidade, onde cada vez mais me reconheço. Para mim, 2005 não “passou batido”.


Não estou discursando contra a tecnologia e o progresso, tampouco fazendo a apologia da preguiça, apenas, gostaria que refletíssemos que, no fim das contas, tempo vale muito mais do que dinheiro, simplesmente porque não tem preço. A maior fortuna do mundo não compraria um segundo a mais de vida que me permitisse vislumbrar um último pôr-do-sol na Praça da Liberdade* que, hoje não, não tenho tempo de olhar...


 


Sandra B.


 


* Praça da Liberdade - logradouro público localizado na cidade de Rio Claro/SP, lugar de vivências afetivas...

Pai dos Burros

Rating:
Category:Books
Genre: Other
Author:Um bando de caras pretenciosos!
Pai dos burros é o carinhoso apelido que damos àquele livro enorme, de páginas fininhas, cheio de palavrinhas deliciosas que, eventualmente, se transformam em poemas, preces, letras de músicas, notícias de jornal. A quantidade de dicionários que existe hoje no mercado é enorme: dicionário de informática, de termos médicos, de bioquímica, essa lista não tem fim e acaba de ser engrossada por uma publicação de peso: um dicionário de mulheres!
Uma editora de dicionários, líder no segmento na Alemanha, lançou, em outubro passado, uma espécie de guia, “Alemão-mulheres – mulheres-alemão”, que traduzirá para os alemães as falas das mulheres, ou melhor, o que (eles supõem) está dito nas entrelinhas dessas falas. O grupo Langenscheidt, muito conhecido por seus respeitados dicionários de língua estrangeira, editou um guia que traduz frases femininas desconcertantes como "Vamos ficar abraçados" (a tradução, segundo o guia, seria: "sem sexo hoje, por favor!").
Os capítulos são divididos por assuntos que oferecem dicas de comportamento e revelam as obscuras mensagens ocultas nas frases mais corriqueiras do cotidiano, segundo o editor chefe da Langenscheidt.
Como sou o tipo de leitora para quem um pingo é letra, fico logo imaginando que este projeto é um tanto afrontoso para nós mulheres. Primeiro, porque generaliza situações e padroniza o comportamento feminino. Segundo, porque, como diria Haroldo de Campos, tradução é traição, já que é impossível ser fiel ao pensamento do autor, que dirá a pretensão de interpretar o sentido das nossas falas sem levar em conta, por exemplo, a expressão corporal, elemento fundamental para esse tipo de análise. Terceiro, porque reforça a tese de que somos complicadas e incompreensíveis, diga-se de passagem, para a grande e indiscutível sorte dos homens, afinal, que tediosa seria a vida se não fossem os nossos mistérios?
Segundo a agência de notícias Reuters, o tal dicionário já vendeu milhares de exemplares e, com menos de um mês de seu lançamento, já está no prelo a 3ª. tiragem - espero que seja uma conspiração feminina para tirar os livros do mercado. Bom, pelo menos o livro não foi escrito pelos americanos, aí sim teríamos uma versão brasileira fresquinha nas livrarias, no máximo até março próximo.
Por enquanto, preserva-se o direito dos homens brasileiros de lerem e interpretarem suas mulheres usando o antigo método da tentativa e erro, e, assim, estamos todos salvos da monotonia.

Sandra B.


sábado, 14 de janeiro de 2006

AMOR


Amor

 

Grão plantado

para morrer

oculta na semente

a ilusão daquilo

que se eterniza

no momento em que

apodrece.

 

Sandra B.

 

imagem: Embraced Couple, de Cristina Figueredo; 1996.