terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A máquina do mundo entreaberta

L'Art Machine, de Jonathan Talbot

Empresto de Carlos Drummond de Andrade o verso que dá título a essa crônica, relembrando que, em 2000, a Máquina do Mundo foi eleito o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Bem, com essa afirmação tão definitiva não concordo, penso que nem Drummond concordaria, já que coloca ponto final na possibilidade criativa de todos os poetas contemporâneos e dos que virão.
Lembrei-me dos versos, e do poema, ao ouvir a frase mais triste que alguém pode dizer, e que está se tornando corriqueira: nada mais me surpreende. Dita por uma pessoa jovem, a frase se revela mais chocante, pois expõe amargura e decepção em relação à vida
Se um defunto falasse, ele sim estaria autorizado a emitir essa contundente declaração, verdadeira apenas para quem já interpretou a última cena e viu a cortina do teatro fechar-se para sempre. Mas, para qualquer um que siga entre os vivos, a máquina do mundo - metáfora da experiência e do devir – permanece entreaberta.
A decisão de aceitar ou não a oferta da máquina nos pertence. Ou optamos por olhar a vida com olhos recém-nascidos, ou adotamos os óculos da indiferença, a capa das pseudocertezas e seguimos a jornada, afirmando que nada mais nos surpreende. 
No poema citado, a postura do eu - poético de Drummond é a do desengano; suas “pupilas gastas” não são afetadas pela beleza, suas “mãos pensas” já não são suficientes para comportar mais conhecimento. E, aqui, nos ilumina o segredo do poema: Drummond falava dos homens de seu tempo, homens que abortaram qualquer possibilidade de surpreender-se, preferindo a “treva mais estrita de uma estrada pedregosa”. 
Oro para que jamais chegue o dia em que me falte o espanto essencial. Peço que minhas pupilas sejam afiadas diariamente pela luz da beleza que extravasa da cena mais banal, pela delicadeza dos gestos mais corriqueiros, pelos cães vira-latas e pelas cores desprezadas das flores que brotam espontaneamente. 
Não surpreender-se é abrir mão da humanidade. É ignorar que o próprio Deus, para alentar a chama da Sua esperança no homem que criou, embrulha surpresas e alegrias no mais sensível pacote que alguém pode receber: o corpinho de um bebê. 
O caminho é de pedras, a hora é a hora do medo, os seres humanos continuam tão desumanos como sempre. Se nem o bem, tampouco o mal já nos surpreendem, então já não é possível sonhar mudanças. 
Mas, se em algum lugar do planeta há alguém boquiaberto diante da máquina do mundo entreaberta, viva! Talvez, nem tudo esteja perdido, diante da surpresa e do imprevisto, vamos responder com a “esperança mais mínima — esse anelo/de ver desvanecida a treva espessa/ que entre os raios do sol inda se filtra...”

Sandra Baldessin

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Aprendizagem da Alegria


          
Fonte: www.esmas.com

          Alegria. Essa talvez seja a mais bela palavra registrada no dicionário. Mas a plenitude do seu significado só pode ser traduzida por um poema, pela risada sonora de uma criança, pela delícia do vento, dedilhando uma canção na folhagem das árvores.
Mas, é, também, algo cada vez mais raro em nossa sociedade. Isso porque o estilo de vida consumista que adotamos tem comprometido a nossa capacidade de senti-la. As coisas simples, amigas da alegria, já não nos cativam. O que atiça o nosso desejo tem preço, mas não tem poder para nos manter satisfeitos.
Aliás, a função da sociedade de consumo e do mercado é manter-nos em estado de permanente insatisfação, oferecendo pequenas doses de prazer, contidas em objetos que prometem e não cumprem. Fica sempre faltando alguma coisa.
E falta mesmo, porque a alegria não cabe nas sacolas das lojas de grife, a alegria não se sujeita à última moda, nem faz parceria com os prazeres que nos consomem, enquanto, tolos, acreditamos que nós é que estamos desfrutando deles.
Vale lembrar, ainda, que o vício do prazer bloqueia o caminho de acesso à alegria, já que são experiências completamente diferenciadas. O prazer é bicho exigente, que vive com a boca escancarada, pedindo mais. A alegria, ao contrário, é a flor da completude, seu perfume e beleza preenchem de tal forma o coração humano que tornam supérfluos quaisquer complementos.
O escritor alemão, Goethe, disse que tanto o desgosto como a alegria dependem mais do que somos do que daquilo que nos acontece. Concordo com ele, pois tenho conhecido pessoas que vivem situações de extrema adversidade sem, contudo, perder o dom de alegrar-se.
A alegria é aliada da vida e da fé, como testemunha uma das mais belas páginas literárias contidas no Velho Testamento, no livro de Neemias: “A alegria do Senhor é a nossa força”.
Além disso, a alegria não nos obriga a excessos, não nos fere como o prazer do consumo, que, junto com a satisfação de adquirir um objeto, nos presenteia com a tristeza de abrir mão de outros tantos.
A mera satisfação momentânea, e dependente das circunstâncias, não passa de alegria pirateada, e falsifica a nossa potência de existir. É preciso reaprender a alegria, já que não queremos uma experiência de vida made in china.
Embora se diga que alguns nascem com vocação para a alegria, também é verdade que se trata de um afeto passível de ser aprendido. Que a aprendizagem da alegria se torne uma possibilidade.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Recomeços

Retomo, hoje, o blogue Letramorfoses, criado originalmente na primeira rede social à qual ingressei, em 2003: o Multiply. No contexto do Mult fiz amigos que me acompanham faz uma década. Alguns saíram do plano virtual e entraram na minha vida real, embora nestes tempos seja cada vez mais difícil distinguir entre realidade e virtualidade. Ao importar o blogue do seu "berço" revivi momentos da minha criação literária, e espero que essa retomada implique, também, num resgate de estar poeta.





sexta-feira, 16 de abril de 2010

kinoblog: Revista Cinema Caipira

http://kinoolho.blogspot.com/2010/03/revista-cinema-caipira-de-marco.html
Blog do grupo Kino Olho. É possível fazer download da Revista Cinema Caipira, editada pelo grupo, ou encomendar exemplares impressos.

Kino-Olho n.58




Projeto do grupo Kino Olho, dirigido pelo cineasta João Paulo Maria Miranda. Adaptação de Fernanda Tosini sobre poema de Ferreira Gullar, que conta em forma de cordel a luta entre Tio Sam e Zé Moléstia. Interpretação de João de Lima Neto e Claudio Lopes. Realização Prefeitura Municipal de Rio Claro, Secretaria Municipal de Cultura e Grupo Kino-Olho. Produção TV Cidade Livre e Cia. Quanta de Teatro.
Para quem se interessar, há muitos vídeos do grupo no youtube.

No detalhe de capa, foto do cineasta.

Ausência


Para o meu pai


Eras tu que
lustravas 
manhãs colando-as 
à janela

a ti pertenciam
os cabelos
desabrochados
das rosas todas

se hoje cultivo 
brotos de asfalto
é porque os aduba  
a tua falta.



(Imagem: acervo da família. Nicolau Sánchez, em 1956, no Beco das Garrafas, Rio de Janeiro)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A mirada sensível

Murilo Mendes, o poeta mineiro, falava da necessidade de ter o olho armado para a vida, fator indispensável para a sobrevivência. E o que seria esse olho armado?

Não é coisa restrita aos poetas e fazedores de arte. É algo com que nascemos, e, ao longo da jornada, permitimos que se perca. É a mirada profunda de quem deseja ver além da superfície polida das coisas.

Ao mesmo tempo em que muitos perdem esse olhar que inaugura o mundo a cada manhã, outros procuram cultivá-lo. Aqueles que apuram o paladar do olho, ensinando-o a procurar sabores inusitados nas banalidades cotidianas, certamente terão uma vida mais rica, mais intensa.

            A história humana revela que o tédio e o apetite insaciável por novidades não são coisas inventadas recentemente. Tampouco a depressão que se segue quando se torna impossível satisfazer essa fome.  Nesse momento, muitos recorrem às drogas, lícitas ou ilícitas, em busca de ampliar sensações.

Nunca antes essa fragilidade da psique esteve tão patente. Crianças, jovens e adultos sofrem de uma espécie de depressão dos sentidos. Falta o olho armado. Falta perceber, como quer a também poeta  Adélia Prado, que “a beleza é viva e te olha, chama pelo nome ao que a procura”. Quantos de nós estamos atentos para ouvir esse chamado?

Os cientistas chegaram à conclusão que a observação humana é única, própria de cada ser. O nosso jeito de olhar é como se fosse uma assinatura, uma forma só nossa de percepcionar o mundo. Há muito tempo os poetas já sabiam disso.

Somos seres colocados à imensa janela do mundo, convidados a olhar a paisagem. Para evitar a depressão dos sentidos é fundamental cultivar a mirada. Não é tarefa fácil, pois desaprendemos as coisas fundamentais para gravar na memória as supérfluas.

Abrimos mão da simplicidade e, por isso, quando a beleza nos fita, seja através da natureza, seja através do homem, muitas vezes a ignoramos, perdemos o momento mágico de epifania.

Há coisas que precisamos reaprender; como dizem os versos de Fernando Pessoa, precisamos raspar a tinta com que os nossos sentidos foram pintados. Precisamos de um olhar que ressignifique a natureza e as relações entre os homens.

Cultivar um olhar sensível é, talvez, uma das poucas vias de resistência ao consumismo, à singularidade que resiste aos padrões de beleza massificados e à própria falência do humano.


Sandra Baldessin


(Publicado originalmente no Jornal Cidade de Rio Claro)