sexta-feira, 16 de abril de 2010
kinoblog: Revista Cinema Caipira
Blog do grupo Kino Olho. É possível fazer download da Revista Cinema Caipira, editada pelo grupo, ou encomendar exemplares impressos.
Kino-Olho n.58
Projeto do grupo Kino Olho, dirigido pelo cineasta João Paulo Maria Miranda. Adaptação de Fernanda Tosini sobre poema de Ferreira Gullar, que conta em forma de cordel a luta entre Tio Sam e Zé Moléstia. Interpretação de João de Lima Neto e Claudio Lopes. Realização Prefeitura Municipal de Rio Claro, Secretaria Municipal de Cultura e Grupo Kino-Olho. Produção TV Cidade Livre e Cia. Quanta de Teatro.
Para quem se interessar, há muitos vídeos do grupo no youtube.
No detalhe de capa, foto do cineasta.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
A mirada sensível
Murilo Mendes, o poeta mineiro, falava da necessidade de ter o olho armado para a vida, fator indispensável para a sobrevivência. E o que seria esse olho armado?
Não é coisa restrita aos poetas e fazedores de arte. É algo com que nascemos, e, ao longo da jornada, permitimos que se perca. É a mirada profunda de quem deseja ver além da superfície polida das coisas.
Ao mesmo tempo em que muitos perdem esse olhar que inaugura o mundo a cada manhã, outros procuram cultivá-lo. Aqueles que apuram o paladar do olho, ensinando-o a procurar sabores inusitados nas banalidades cotidianas, certamente terão uma vida mais rica, mais intensa.
A história humana revela que o tédio e o apetite insaciável por novidades não são coisas inventadas recentemente. Tampouco a depressão que se segue quando se torna impossível satisfazer essa fome. Nesse momento, muitos recorrem às drogas, lícitas ou ilícitas, em busca de ampliar sensações.
Nunca antes essa fragilidade da psique esteve tão patente. Crianças, jovens e adultos sofrem de uma espécie de depressão dos sentidos. Falta o olho armado. Falta perceber, como quer a também poeta Adélia Prado, que “a beleza é viva e te olha, chama pelo nome ao que a procura”. Quantos de nós estamos atentos para ouvir esse chamado?
Os cientistas chegaram à conclusão que a observação humana é única, própria de cada ser. O nosso jeito de olhar é como se fosse uma assinatura, uma forma só nossa de percepcionar o mundo. Há muito tempo os poetas já sabiam disso.
Somos seres colocados à imensa janela do mundo, convidados a olhar a paisagem. Para evitar a depressão dos sentidos é fundamental cultivar a mirada. Não é tarefa fácil, pois desaprendemos as coisas fundamentais para gravar na memória as supérfluas.
Abrimos mão da simplicidade e, por isso, quando a beleza nos fita, seja através da natureza, seja através do homem, muitas vezes a ignoramos, perdemos o momento mágico de epifania.
Há coisas que precisamos reaprender; como dizem os versos de Fernando Pessoa, precisamos raspar a tinta com que os nossos sentidos foram pintados. Precisamos de um olhar que ressignifique a natureza e as relações entre os homens.
Cultivar um olhar sensível é, talvez, uma das poucas vias de resistência ao consumismo, à singularidade que resiste aos padrões de beleza massificados e à própria falência do humano.
Sandra Baldessin
(Publicado originalmente no Jornal Cidade de Rio Claro)
domingo, 28 de setembro de 2008
Poesia e a dimensão erótica da vida
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Other |
Se, de um lado, temos o homem faminto por sentido e, do outro, há o poema que se abre ao desejo desse homem, fica patente o poder erótico da poesia. E, aqui, não cabe falar em poemas eróticos, pois não há poesia que não seja erótica.
O ritual erótico que resulta no poema começa com a paixão do poeta pela palavra, pelo desejo que permeia sua relação com a linguagem. Só o poema pode revelar toda a sensualidade de um idioma. Só a Poesia possui as palavras com tamanha ânsia, a ponto de arrancá-las ao controle da sintaxe, desnudá-las da roupagem da gramática e conduzi-las, num crescendo, ao gozo inevitável: o poema.
Toda poesia que mereça esta designação é erótica, no sentido de que nasce da pulsão por expressar o inominável, que, por sua intensidade, é efêmero como os sentidos pressentidos no poema, como a própria paixão.
A poesia é sempre erótica, pois o poema – entidade resultante da orgia entre o poeta e a palavra – é como o corpo que surge no momento da cópula, um outro corpo que não pertence a nenhum dos amantes, existe apenas no breve intervalo do êxtase.
Não se trata de o poema ter ‘conteúdo erótico’, mas de que sua fala se articula a partir de uma dimensão erótica presente no poeta e, mais tarde, no leitor.
Discute-se muito a carência de público leitor para a poesia. Tenho cá minhas teorias sobre isso: embora vivamos numa sociedade extremamente erotizada, tememos assumir nossa dimensão erótica, que não se sujeita à sintaxe desumanizante de quaisquer moralismos. Por isso, a grande maioria das pessoas não é capturada pela sedução do poema, por sua carne latejante e plena de sentidos que estão além da superfície porosa das palavras.
Encerro essa divagação com um poema de minha autoria que, espero, diga mais que que toda essa prosa:
Psicopoema
encerrado no hospício
das palavras o
poeta
remexe as entranhas
do seu mais íntimo
dicionário
busca o verso
no caldo químico dos
próprios hormônios e
reencontra a si mesmo
na plenitude orgásmica
do poema
Sandra Baldessin
Imagem: Poema Visual de minha autoria, que integra a exposição Flux 2008.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Nauro Machado
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Books |
| Genre: | Literature & Fiction |
| Author: | A poética endógena de Nauro Machado |
e consome toda
uma existência.”
Nauro Machado
Nesse quinto artigo da série Justiça Poética quero trazer à memória o nome do poeta maranhense Nauro Machado. Sua obra já foi analisada com brilhantismo pelo também poeta e ensaísta Ricardo Leão, portanto minha intenção é repassar impressões pessoais sobre a poética de Nauro, muito mais ligadas ao efeito que sua poesia produz em mim do que a teorizações literárias.
A poesia, em Nauro, não surge como o fluxo de inspiração irradiado de um poder divino (theia dunamis). Antes, suas entranhas são seu oráculo. Sua poética é endógena e, particularmente, impressiona-me o fato de que alguns poemas parecem surgir de uma auto-vivissecção, como se Nauro dissecasse as suas emoções, seus questionamentos sobre a vida, o ser e a linguagem, traduzindo-os em versos plenos de angústia: “Pode alguém perceber alguma coisa/ do que a vida vai sendo, inconsciente?”
Assim, parece-me que a poesia de Nauro padece da angústia de renomear o homem e a vida na esperança, que já nasce frustrada, de recuperar algo que se perdeu sem nunca ter existido: “Por que, então, brado aos céus deste infortúnio,/estou passado no presente que une/o meu futuro ao em mim perdido e morto?”
É preciso ressaltar, ainda, a musicalidade de Nauro Machado, a propriedade de bailar que seus versos possuem. Os poemas desenham imagens à moda dos gestos precisos de uma bailarina. É tudo tão denso, e ao mesmo tempo tão impalpável, que o leitor mais distraído corre o risco de ser lançado ao desenlace do poema antes de captá-lo em sua inteireza, percebê-lo em sua autenticidade orgânica.
Justiça seja feita: Nauro Machado representa o que de melhor há na poesia brasileira contemporânea, como tão bem expressam os versos de A rocha e a rosca: “ Em ser outro já decido/o que me faz de nenhum:pisar a dor do resíduo/no elemento mais comum,/negando-me ao indivíduo/no povo completo em um.”
Sugestão de Leitura:
Nau de Urano – Antologia de Sonetos. Ed. Siciliano 2002;
Melhores Poemas – Seleção de Hildeberto Barbosa Filho. Editora Global, 2005;
Pão maligno com miolo de rosas. Edição do autor, 2004;
A rocha e a rosca. Edição do autor, 2003.
Imagem: Escaneada de livro do autor.