Nas férias desse ano, aproveitamos para vistar a família em Joinville. Como um bônus extra, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a Géh, amiga do mult, e visitar sua exposição. Depois, estivemos numa das mais belas praias do país, Mariscal, localizada em Bombinhas, capital mundial do mergulho ecológico. Essa região do litoral catarinense tem praias para todos os gostos, desde aquelas mais agitadas, passando pelas prais mais tranquilas, mas com perfeita infgra-estrutura turística, até as praias desertas, às quais temos acesso pelas trilhas na mata. Mariscal, onde ficamos, é protegida por leis de preservação e se constitui num paraíso do olhar.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Discurso do oceano
Nas férias desse ano, aproveitamos para vistar a família em Joinville. Como um bônus extra, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente a Géh, amiga do mult, e visitar sua exposição. Depois, estivemos numa das mais belas praias do país, Mariscal, localizada em Bombinhas, capital mundial do mergulho ecológico. Essa região do litoral catarinense tem praias para todos os gostos, desde aquelas mais agitadas, passando pelas prais mais tranquilas, mas com perfeita infgra-estrutura turística, até as praias desertas, às quais temos acesso pelas trilhas na mata. Mariscal, onde ficamos, é protegida por leis de preservação e se constitui num paraíso do olhar.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Balanço de leitura
No início de um novo ano é comum ouvirmos o termo “balanço”, referente às análises sobre o desempenho financeiro das empresas e do comércio. A idéia desse artigo se desencadeou exatamente por conta da palavra balanço que, para mim, evoca os poemas do livro de Drummond: “Cadeira de Balanço”. Assim, oscilando entre o poético e o analítico, resolvi fazer um “balanço” das leituras realizadas em 2007.
Não tenho dúvidas em afirmar que, o melhor saldo de 2007 foi a descoberta da poesia de Nauro Machado, poeta vigoroso cuja obra merece ser mais divulgada por esses brasis. De Nauro, destaco o poema A Rocha e a Rosca, considerado por Ricardo Leão, teórico da literatura, como o “discurso épico do ser”. Eis um fragmento: “Na eternidade eu me duro:/me aniversario presente,/ para sempre a sós, no escuro,/ de mim próprio a semente,/ sem passado e sem futuro,/ para sempre, por ausente.”
Cito, dentre os melhores, o livro da amiga portuguesa Amélia Pinto Pais: “Fernando Pessoa: o menino de sua mãe”, ainda inédito no Brasil. Livro que revela a constância do amor da leitora por seu poeta do coração e seu desejo de ampliar os horizontes desse amor, transmitindo-o às crianças e adolescentes. Uma obra de rara delicadeza, na qual a autora assume a voz do poeta infante e conta sua história. Do livro de Amélia destaco o trecho final da carta endereçada ao poeta: “Está aqui, entre seus amigos, unidos pela língua que foi sua pátria, amigos seus que tantas alegrias lhe devem – e que lhe querem muito bem -, agradecendo-lhe por ter existido e se ter outrado, múltiplo e plural como o universo!”
Já no final de 2007, o Gil Uryn, amigo querido, presenteou-me com “A alma imoral”, do rabino Nilton Bonder. Prosa instigante que ressignifica os conceitos de corpo e alma, enquanto discute a temática da traição. Espero que o excerto “abra o apetite” pela leitura: “Resta uma pergunta: se aquilo que é intrinsecamente correto pode assumir o status de um equívoco, seria possível imaginar situações sociais em que o intrinsecamente equivocado pudesse ser levado à condição de acerto?” Vale procurar a resposta no livro.
Duas releituras estão inclusas neste balancete: “O cavaleiro inexistente”, de Ítalo Calvino, e ”Secreta Mirada”, de Lya Luft.
A novela de Calvino é indispensável para os apreciadores da narrativa surreal. A releitura conduziu-me a entender melhor o quanto é viável existirmos pelas palavras, à margem da expressão corporal (vide o sucesso do chamado sexo virtual!). Atenção para o fragmento, que retrata o próprio ato da escrita: “Começa-se a escrever com gana, porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre num uma gota de vida, e a vida está toda fora ... fora de você...e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo...”
“Secreta Mirada”, por sua vez, resgata em mim o amor por Lya Luft, recordando-me que ela já foi bem maior do que seus últimos livros, desviantes, no contexto de usa obra literária. Ou, quem sabe, trata-se apenas do velho sentimento de sentir-se traída. A beleza desses versos redime qualquer mágoa: “talvez haja um amor me inventando,/ mas tão vago, nem roça/ as beiras da minha praia, concha breve/ e encolhida, não vou desenrolar/ o meu abraço. Quando achei que era tempo, não era:/ talvez este ondular entre meus ramos/ venha de alguma alheia primavera.”
Resultado do balanço: a leitura me embala, no aconchego das suas misteriosas engrenagens.
Sandra Baldessin
Imagem: La Lecture, de Pablo Picasso. Escaneado da Revista Mente e Cérebro, dez. 2006.
domingo, 6 de janeiro de 2008
O ABADE E O FRADEZINHO
Description:
Era uma vez um velho monastério, localizado no centro de um belo e frondoso bosque. Ali viviam muitos frades e cada um deles tinha uma missão diferente. Havia o frade porteiro, o frade cozinheiro, o frade médico, um outro que era jardineiro, um que exercia a função de bibliotecário, outro cuidava da horta; havia frade que dava aulas para os outros frades, frade farmacêutico e... Enfim, havia um frade para cada coisa e coisas a serem feitas por cada frade.
Uma coisa, porém, todos tinham em comum: levavam uma vida de oração e dedicação aos estudos. Como em todos os monastérios, o frade-que-manda era o abade.
Conta-se que o Bispo daquela região ficou sabendo, através de fuxicos do populacho, que o abade era meio tonto e não estava à altura de seu cargo. O Bispo decidiu fazer um teste para comprovar se o falatório do povo tinha algum fundamento. Mandou chamar o abade e propôs a ele três enigmas, dando-lhe um ano de prazo para decifrá-los. Eis os enigmas:
1) Se eu quisesse dar uma volta ao mundo, quanto tempo demoraria?
2) Se eu quisesse vender-me, quanto valeria?
3) Que coisa estou pensando, nesse exato momento, e que não é verdade?
O abade regressou ao monastério e, sentado em sua cadeira de frade-que-manda, começou a pensar, pensar, pensar e pensar... Pensou tanto que de suas orelhas já saia fumaça! Pensar lhe causava fortes dores de cabeça e o pior de tudo é que junto com as dores não surgiam as respostas: quantos mais ele pensava, mais confuso ficava.
Pois olhe que o abade chegou a entrar na biblioteca, pela primeira vez em sua vida, para mexer e remexer nos livros, tentando encontrar a solução dos enigmas. Pensa-que-pensa, e o tempo passando veloz, como é seu costume. Quando faltavam poucos dias para encerrar-se o prazo imposto pelo Bispo, o abade, desesperado, sentou-se debaixo de uma árvore.
Um jovem e humilde frade, cuja função era cuidar das ovelhas do monastério, passava por ali e viu o abade com a cabeça entre os joelhos, com todo jeito de estar angustiado. Aproximou-se, temeroso, pois nunca antes se dirigira ao abade, e perguntou se podia ajudar. O frade-que-manda contou-lhe tudo sobre os enigmas e o fato de não ter encontrado as respostas.
O fradezinho pastor disse a ele que não mais se preocupasse: ele mesmo responderia ao Bispo. Assim, no dia aprazado, apresentou-se diante do Bispo usando as roupas do abade e com a cabeça coberta pelo capucho, para não ser reconhecido.
O Bispo não perdeu tempo com conversa, já foi logo indagando:
- Se eu quisesse dar a volta ao mundo, quanto tempo demoraria?
Respondeu o fradezinho: - Se Vossa Reverendíssima caminhasse depressa como o sol, demoraria apenas vinte e quatro horas.
O Bispo pensou por um segundo e resolveu que a resposta foi satisfatória. Fez a segunda pergunta:
- Se eu quisesse vender-me, quanto valeria?
- Quinze moedas de prata. Respondeu prontamente o fradezinho pastor.
O Bispo olhou-o, intrigado: - Por que quinze moedas?
- Ora, Vossa Reverendíssima não pode desejar ser avaliado em maior conta que Jesus Cristo, que foi vendido por trinta moedas de prata!
O Bispo pensou com seus botões que, afinal, o abade não era tão tolo quanto diziam. Lançou o último enigma:
- Que coisa estou pensando e que não é verdade?
- Vossa Reverendíssima está pensando que sou o abade, mas na verdade sou o frade que cuida das ovelhas.
O Bispo ficou impressionado com a inteligência do jovem frade pastor e decidiu que, dali em diante, ele seria o abade e o frade-que-manda seria pastor de ovelhas.
Ingredients:
Colorin, Colorado! O conto está acabado. Quem quiser ouvir outra vez, feche os olhos e conte até três!
Directions:
Conto popular espanhol, recolhido por Francisco Hidalgo do projeto "Los abuelos Contadores" (Chile). Tradução: Sandra R.S. Baldessin
Imagem: Disponível em: http://jorgetello.blogspot.com/
domingo, 30 de dezembro de 2007
O imutável e o inacessível
As duas assombrosas palavras que aparecem juntas no título desse artigo podem dar a impressão de que vou meter a minha colher de noviça na compota dos iniciados. A coisa toda é muito mais prosaica; trata-se, apenas, do efeito colateral de olhar-se ao espelho para modelar as sobrancelhas.
Pode acontecer de, repentinamente, nos determos para uma mirada mais atenta nos próprios olhos. Ato perigoso, principalmente nessa fase de transição entre um ano que se despede e outro que se aproxima.
Nos olhos que miravam os meus, descobri sem surpresa, presentificavam-se todas as minhas versões: a menina, a jovem, a mulher. E, espreitando, nas sombras, as imagens que ainda terei. Na linha contínua do tempo, passado, presente e futuro enlaçados numa dança ininterrupta refletida no brilho do olhar.
Foi nesse momento que elas surgiram: as palavras imutável e inacessível. A velha e boa rotina de olhar-se ao espelho para tirar as sobrancelhas, se for dezembro e véspera do Ano-novo, pode nos transformar em filósofos de meia-tigela.
Enquanto observava a menina que fui, atinei que o passado pertence ao reino do imutável. Ao domínio das coisas que, para o bem e para o mal, permanecerão cristalizadas no tempo. Grande sabedoria a dos antigos: o passado é da ordem do leite derramado, sobre o qual não adianta chorar, nem pra lamentar o que era doce e se acabou, tampouco para trazer ao paladar o ressaibo de amarguras não metabolizadas.
Já o futuro, imagens que ainda não se delineiam no espelho, pertence ao reino do inacessível. O futuro é da ordem da incerteza, da beleza ou da dor que se revelarão somente quando o amanhã desembrulhar-se hoje.
Assim, somos o que somos nesse intervalo concreto entre o passado e o futuro, ao qual damos o nome de agora. O resto é o mistério que nos atrai e seduz, feito o passarinho enfeitiçado pela cobra. E, tenho certeza, a vida perderia muito do seu encanto se desvendássemos a receita do tal feitiço.
Já disse o poeta, na canção: são muitos os perigos dessa vida. Os piores, dentre eles, é não desvincular-se do imutável e viver angustiado pelo inacessível.
2008 se avizinha, trazendo em sua esteira o agora, o presente: único canteiro de obras possível para nos construirmos seres mais humanos. Mais uma oportunidade concreta para aprendermos a estar no mundo, de forma criativa, com todos os outros seres.
Que 2008 nos atraia e seduza, com todos os seus perigos e suas promessas. São os votos dessa filósofa de meia-tigela, mas que, pelo menos, sabe modelar as sobrancelhas.
Sandra B.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
Encontro com Flô
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Books |
| Genre: | Literature & Fiction |
| Author: | Laura Escudero |
Julieta, uma adolescente de 13 anos, vive com seus pais e o irmão mais novo num pequeno apartamento. De repente, o mundo de Julieta fica de pernas para o ar: a avó Flora, doente de Alzheimer, precisa vir morar com sua família, pois a Tia Raquel, que sempre cuidara da avó, está enferma e não poderá fazê-lo por um tempo.
A mãe pede que Julieta tenha paciência, pois a Vó Flora precisa ficar em seu quarto, já que não há acomodações suficientes na casa. A princípio, a menina se angustia com a possibilidade de ter o seu refúgio invadido por uma quase estranha, que sequer se lembra direito o nome da neta, pois passa a chamá-la de Anita, o nome da irmã que prevalece em sua memória deteriorada.
O livro, além de sua beleza literária, enfoca um dos mais graves problemas enfrentados por muitas famílias na vida real. Portanto a ficção, nesse caso, cumpre um papel fundamental ao abordar temas como as relações familiares em face de um conflito não tão raro, já que no Brasil existem mais de 500 mil pessoas com essa doença.
Acredito que o ponto chave da novela se encontra no resgate da memória autobiográfica, que se desenha à medida que a menina Julieta passa a se interessar pelas histórias da família evocadas pela presença da avó Flora, Flô, como a chamavam quando criança.
O elo de contato entre Julieta e sua avó são as cartas escritas por vó Flô para a irmã, Anita, que nunca foram postadas. Atendendo ao pedido da doente, Julieta começa a lê-las em voz alta, e Vó Flora a identifica com Anita. A partir dessa identificação, Flora reaviva a chama das lembranças de infância, o que permite manter sua identidade.
Assim, se estabelece entre as duas uma relação criativa, terapêutica, de intensa troca afetiva, que influencia grandemente na qualidade de vida da avó, ao mesmo tempo em que amplia a percepção de mundo da garota.
O livro possui uma delicadeza que define como deveria ser o cuidado com os pacientes de Alzheimer, além de mostrar a necessidade de construir pontes sólidas para o encontro das gerações.
Julieta, transformada em cuidadora, através de suas narrativas convoca Vó Flora ao presente, enquanto a presença da avó conduz a menina numa visita ao passado, que influenciará definitivamente o seu futuro.
Sandra B.
Quebra-cabeça
rasgado nas
paredes o teu
sorriso de outdoor
procuro nas
peças baralhadas
tua velha alegria
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
História do Rei Transparente
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Books |
| Genre: | Literature & Fiction |
| Author: | Rosa Montero |
A ação se desenvolve num conturbado momento histórico: final do Século XII e início do Século XIII; período marcado pelas lutas internas do catolicismo romano, que, com a violência que posteriormente resultou na Inquisição, resistia a quaisquer questionamentos que pudessem ameaçar sua dominação. As vozes dissonantes, como as dos cátaros, eram imediatamente classificadas como heréticas, e a perseguição promovida pelo papado culminava em enormes fogueiras.
Para contar essa história, Rosa Montero elegeu uma personagem que, naquele contexto, estava relegada ao silêncio: uma mulher. Leola, uma adolescente de 15 anos, se revolta contra a miséria e a violência do mundo feudal e decide adotar uma personalidade masculina. Rouba a armadura de um soldado morto e se transforma num cavaleiro, um “mercador de sangue”, que se aluga para lutar as guerras alheias. E, assim, através do olhar de Leola, posteriormente “Senhor de Zarco”, a escritora nos desvenda os cenários da Europa Medieval.
Montero abre-nos a porta de um mundo no qual a vida humana não possuía valor algum (qualquer semelhança com a contemporaneidade não é mera coincidência); cenários que nos mostram o coração das trevas, ou, talvez, as trevas de que são feitas as almas dos homens, muitas vezes, daqueles mesmos que convencem o mundo de que são “iluminados”.
Encontramos, ainda, a presença de algumas figuras históricas bastante polêmicas: a rainha Leonor de Aquitânia e seu filho, Ricardo Coração de Leão; Bernardo de Claraval, célebre e cruel intelectual católico, fundador da Ordem dos Templários; Abelardo e Heloísa, entre outros.
Mas, não se enganem, a trajetória de Leola não é, de modo algum, a verdadeira história do livro. Tampouco a “História do Rei Transparente”, narrativa que se constrói paralelamente à de Leola.
Dentre as muitas histórias que se entrelaçam na narrativa de Rosa Montero há uma, subliminar, que se desenha nas linhas e entrelinhas do texto: a história da palavra.
Leitor algum sairá intacto da História do rei Transparente, nenhum estará inocente diante das páginas em branco no final do livro. Nem um sequer, deixará de meditar até encontrar o significado do enigma que Montero nos propõe nas últimas linhas; e, sabemos, dessa resposta depende a nossa vida: “Quando me nomeias, já não estou.”
Sandra Baldesin