quarta-feira, 8 de março de 2006

Consulado da Mulher


Nosso cenário tinha como pano de fundo a próprra natureza; utilizamos velas, água aromatizada, folhas de limoeiro e utensílios antigos de barro.

Realizei hoje mais uma oficina de contação de histórias no Consulado da Mulher (Rio Claro/SP); estamos trabalhando com o livro "Mulheres que correm com os lobos", de Clarissa Pinlola Estès. A oficina de hoje foi muito especial, pois antes de iniciarmos a história, um amiga, terapeuta corporal (Sandra Bretas) realizou uma sensibilização com as oficineiras. Também usamos cenário e a oficina foi realizada ao ar livre. As experiências têm sido extremamente enriquecedoras.

domingo, 5 de março de 2006

Entrevista

http://ABIA Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS - Entrevista bombástica.
Entrevista do Alexei. Vale a Leitura.

Iniciados


   
    Iniciados
 
 
   Nos corpos,      
     a vida.
O cheiro mesmo
     da vida –
      a rosa 
   anunciada -
   bálsamo e
 promessa de
    leitura.
 
Sandra B.
 
imagem: "La passion"

 

 

sábado, 4 de março de 2006

A mulata de Córdoba


Description:
A MULATA DE CÓRDOBA*

Ingredients:
*Traduzido e adaptado por Sandra R.S. Baldessin ©
Imagem: "La hechicera española"

Directions:
Diz uma antiga lenda que, há mais de dois séculos, vivia na cidade de Córdoba, no Estado de Veracruz, uma mulher muito formosa, que jamais envelhecia, à despeito do passar dos anos. Todos a chamavam de ‘Mulata’, por causa da cor de sua pele, dourada pelo sol. Além do mais, corria a fama de que esta mulher era advogada das causas impossíveis: as moças que não tinham prazer no sexo, os homens que perderam o vigor, os trabalhadores sem emprego, as pessoas com enfermidades graves, todos a procuravam para resolver seus problemas e, a todos eles, a Mulata atendia.
Acontece que os homens ficavam presos por sua formosura e disputavam entre si para ver qual conquistaria o seu coração. Ela, porém, não correspondia a nenhum deles, pelo contrário, os desdenhava. Todos comentavam os poderes da Mulata e diziam que era uma bruxa, uma poderosa feiticeira. Algumas pessoas garantiam que já haviam surpreendido a Mulata voando sobre os telhados, sem falar nos seus belos olhos negros, que, segundo diziam, despediam miradas diabólicas ao mesmo tempo em que a bela sorria com seus lábios vermelhos e dentes muito brancos.
Falavam a boca pequena que a Mulata tinha pacto com Satã e o recebia em sua casa. Quando ele a visitava, sempre depois da meia-noite, quem passasse defronte à casa da bruxa veria claramente uma luz sinistra brilhando por entre as rendas do cortinado e pelas frestas da porta: uma luz infernal, como se dentro da casa estivesse ocorrendo um grande incêndio. A fama daquela mulher ultrapassava fronteiras, era imensa! Até canções populares cantavam os seus prodígios.

Ninguém sabe ao certo por quanto tempo essas histórias circularam, aumentando a fama da Mulata. O que todos dão por certo é quem um certo dia, foi levada da cidade de Córdoba e conduzida presa pelo Tribunal da Inquisição, até a cidade do México, acusada de bruxaria e satanismo.
Conta-se que na manhã do dia em que deveria ser executada, o carcereiro entrou no calabouço onde estava acorrentada, e ficou surpreso ao ver que em uma das paredes da cela a Mulata desenhara um navio. Ela sorriu e lhe perguntou: “Bom dia, carcereiro, podes me dizer o que falta neste navio?” O pobre-diabo respondeu com uma imprecação: “Tu és uma desgraçada! Se te arrependesses, não irias agora morrer!”
Ela, porém, insistiu: “Anda, diz-me o que falta a este navio”. Intrigado com a pergunta, o carcereiro respondeu: “Claro está que falta um mastro.” Ao que a Mulata prontamente retrucou: “Se um mastro lhe falta, um mastro ele terá!” O carcereiro se retirou da cela com o coração cheio de confusão, não conseguia entender as palavras enigmáticas da Mulata.
Por volta do meio-dia, o carcereiro voltou à cela e contemplou admirado o desenho. “E agora, carcereiro, o que falta ao navio?” Perguntou a bela mulher. Mais uma vez ele exortou-a: “Desafortunada mulher, se queres salvar tua alma das chamas do inferno, ajoelha e suplica o o perdão perante a Santa Inquisição, encarregada de te julgar. O que pretendes com tais perguntas? Está claro que ao navio faltam as velas. Imediatamente a mulher replicou: “Se as velas lhe faltam, as velas ele terá!”
Mais uma vez o carcereiro se retirou, abismado com aquela misteriosa mulher que, nas últimas horas de vida que lhe restavam, desperdiçava o tempo desenhando, sem temor da morte. Quando caiu a tarde, hora em que se cumpriria o destino da Mulata, estando tudo preparada para sua execução, o carcereiro entrou pela terceira vez em sua cela. Ela aguardava-o sorridente, de tal forma que sua beleza exuberante mais se destacava no cenário feio e sujo do calabouço. Perguntou-lhe: E agora, o que falta ao meu navio?
O homem, aflito, gritou: “Infeliz mulher, põe tua alma nas mãos de Deus Nosso Senhor e arrepende-te dos teus pecados. A este navio, a única coisa que falta é navegar, está perfeito!” A Mulata, mais bela do que nunca, respondeu, exultante: “Pois se Vossa Mercê o deseja com toda força de sua vontade, o meu navio navegará!” Dito isto, sob o olhar aterrado do carcereiro, a Mulata, tão veloz quanto o vento que começou a soprar, saltou para o navio e este começou a se mover, primeiro lenta, e, depois, muito rapidamente, a toda vela, e em questão de minutos desapareceu, levando a formosa prisioneira.
O homem caiu de joelhos, imobilizado pela surpresa, seus olhos saltavam das órbitas, sua boca não poderia estar mais aberta e seus cabelos estavam em pé! Ninguém jamais voltou a colocar os olhos na Mulata. Todos imaginam que esteja com o demônio.
Quem crê nos contos de feiticeiras, que comece a pintar navios nas paredes!

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Lânia e Lisíope


Description:
Gosto muito de contar esta lenda; faz parte de uma coletânea que estou reunindo sob o tema "Histórias da Paixão".

Ingredients:
A Lenda de Lânia e Lisíope

(Versão autoral de Marina Colasanti)

Onde os oceanos se encontram, aflora uma ilha pequena. Ali, desde sempre, viviam Lânia e Lisíope, ninfas irmãs a serviço do mar que, no manso regaço da praia, vinha depositar seus afogados. Cabia a Lânia, a mais forte, tirá-los da arrebentação. Lisíope, a mais delicada, cuidava de lavá-los com água doce da fonte, para depois envolvê-los nos lençóis de linho que juntas as irmãs teciam. Juntas, também, elas os devolviam ao mar, para sempre. Nessa tarefa que nunca se esgotava, as irmãs passavam os seus dias, sem trocar muitas palavras entre si.
Foi num desses dias que Lânia viu que as ondas traziam o corpo de um afogado, que se aproximava flutuando; entrou nas ondas para apanhá-lo e, agarrando-o pelos cabelos, conseguiu traze-lo até a areia. Preparava-se para chamar Lisíope quando, ao virá-lo com o rosto para cima, percebeu que se tratava de um homem jovem e belo. Sentiu-se tão atraída que resolveu ela mesma lavar o sal de seu corpo com água doce e, usando seu pente de concha, desembaraçar os seus cabelos. Em seguida, começou a envolver o corpo do homem com o lençol, mas, sentiu uma dor tão profunda! Percebeu, então, que estava apaixonada.
Não, ela não devolveria aquele moço, pensou, decidida. E rápida, antes que Lisíope chegasse, correu para um língua de pedra que estreita e cortante avançava mar adentro e pôs-se a chamar em voz alta: “Morte, Morte, venha me ajudar!”
Sua voz penetrou as profundezas e, num átimo, sem ruído algum a Morte saiu de dentro d’água. Lânia, então, suplicou ansiosa: “Morte, desde sempre aceito tudo que você me traz, trabalho muito sem nada pedir em troca. Mas, hoje, em troca dos tantos que já devolvi, suplico sua generosidade e lhe peço que me dê este homem, pois meu coração o escolheu.”
Impressionada por tamanha paixão, a Morte concordou com o pedido de Lânia e fez questão de instruir: “Na maré vazante, você deve colocar o corpo do homem sobre a areia, com a cabeça voltada para o mar, pois quando a maré subir, tocará seus cabelos com a primeira espuma e nesse momento ele retornará à Vida.” Lânia fez tudo como a Morte ensinou e assim aconteceu – o homem abriu seus olhos e um lindo sorriso.
Mas, em vez de sorrir só para ela, que o amava tanto, desde o início o seu olhar e o seu sorriso procuravam por Lisíope. Lânia percebia e fazia de tudo para afastá-lo da irmã, mas não adiantava. Não resolvia enfeitar-se, cantar com sua belíssima voz acima do ruído das ondas. Quanto mais exigia, menos ele a satisfazia. Quanto mais o buscava para si, mais à outra ele pertencia.
Lânia estava sofrendo terrivelmente e, um dia, antes do nascer do Sol, ajoelhou-se sobre uma pedra na praia e chamou novamente: “Morte! Morte! Venha me atender.” E quando Aquela que Guarda Silêncio chegou, perdida em pranto e cheia de raiva Lãnia suplicou que atendesse apenas o último de seus pedidos. Que levasse a irmã, e nada mais ela desejaria.
Aquela que Guarda Silêncio deixou-se seduzir pela força do ódio de Lânia. A Morte concordou com sua súplica e instruiu: “Você deve deitar a sua irmã sobre a área lisa da maré vazante, com os pés voltados para o mar; ao primeiro beijo do sal das águas, Ela a levaria.
E assim foi. Lânia esperou uma noite enluarada e convidou Lisíope: “A noite está tão linda, minha irmã, por isso preparei a sua cama junto à brisa, no lugar mais iluminado pelo luar”. Em seguida, sorrateira, esgueirou-se até uma árvore que crescia na beira da praia, e subiu até o primeiro galho, escondendo-se entre as folhas. De olhos bem abertos, esperaria para ver cumprir-se a promessa.
A noite, porém, se fez longa. A brisa trazia o perfume inebriante dos jasmins e o suave marulhar do mar. Lãnia adormeceu. Enquanto Lânia dorme na árvore, dorme Lisíope perto d’água. Um raio de luar despertou o homem, chamando-o para fora, para desfrutar a beleza da noite. O apelo é tão irresistível, ele se levanta e sai da caverna. Estonteado pelo perfume dos jasmins, caminha vagueando pela praia e encontra Lisíope adormecida. No sono, o rosto dela parece fazer-se ainda mais doce, boca entreaberta num sorriso.
Sem ousar despertá-la, o homem se deita ao seu lado. Depois, bem devagar, estende a mão, até tocar a mão delicada que emerge do lençol. Cresce o Amor no seu peito. Na noite, a maré sobe. Já era dia quando Lânia, empoleirada no galho, despertou. Luz nos olhos, procurou na claridade. Viu o travesseiro abandonado. Viu o lençol flutuando ao longe. Da irmã, nenhum vestígio. Pensou consigo: “A Morte cumpriu o trato”. Desceu correndo da árvore para encontrar o seu amado.
Mas sua alegria não durou muito. Seus olhos caíram sobre a areia fina onde ficara gravada a imagem de dois corpos deitados lado a lado. A maré já havia apagado os pés, breve chegaria à cintura. Mas, na areia molhada desenhava-se a marca das mãos unidas, como se à espera das ondas que subiam.

Directions:
A lenda faz parte do imaginário veda e depois foi apropriada pela Mitologia Grega.
imagem: "Lânia e Lisíope" - Disponível em www.margencero.com


sábado, 18 de fevereiro de 2006

Excesso de realidade



A última coisa que poderíamos afirmar sobre os reality shows, do tipo BBB e outros que estão infestando a programação das redes de tevê mundiais, é que apresentam um excesso de realidade. Certo?


            Errado. Tomando como exemplo o BBB, embora saibamos que as ações e reações são muito bem articuladas para dar a impressão de espontaneidade, além da manipulação cada vez mais explícita da opinião pública, através da edição, sob um aspecto fundamental o BBB apresenta sim um excesso de realidade.


            Oculta sob a capa de diversão medíocre, o BBB valida os ideais perversos que norteiam a forma dominante de convivência nas sociedades contemporâneas: a competição. Já é questionável que a competitividade seja aclamada como a melhor qualidade que um ser humano possa ter. Sem maiores reflexões, muitos formadores de opinião, sem falar em pais e professores, estimulam o comportamento competitivo reafirmando a visão do mundo como um campo de batalhas onde sempre haverá vencedores e perdedores, sendo a medida do triunfo exatamente a mesma do BBB: o sucesso financeiro.


            No Big BrotherBrasil, para atingir a meta e ganhar um milhão de reais todas as estratégias (ou seria melhor dizer artimanhas?) são incentivadas e válidas. É preciso seduzir e conquistar supostos amigos que, ocasionalmente, serão descartados porque já não servirão ao interesse supremo. É preciso escolher os amigos certos, aqueles que têm popularidade, que podem contribuir para impulsionar a sua própria trajetória. O lema essencial se traduz por: não confie em ninguém. Parece familiar?


            Às vezes, me fica a impressão de que não sabemos o que estamos produzindo, como sociedade, quando louvamos e estimulamos estes comportamentos; quando não reprovamos explicitamente os atos de “passar a perna nos outros” ou “puxar o tapete” dos parceiros. E, depois, ficamos horrorizados com as reportagens de jornais e tevês que dão conta do número crescente de jovens ingressando na criminalidade ou na prostituição, como “método” alternativo para atingir o tal sucesso financeiro. Ah, mas esses são os “outros”, não tem nada a ver conosco, nós temos princípios!


            O imaginário coletivo está impregnado pela lógica do mercado: produzir, consumir, dominar. Este é o princípio gerador das mais destrutivas forças responsáveis pela devastação ecológica, pela violência, pela miséria. Forças que não sabemos como conter.


            Se continuarmos encorajando este modelo de convivência, que o BBB reflete perfeitamente, não obteremos resultados com as campanhas pela cultura da paz, pelo desarmamento, pelo despertar da consciência ecológica, pelo fim do trabalho infantil, etc. Estamos tentando fechar a porta depois que o ladrão já entrou.


            Existem muitos modos de olhar para esse laboratório social que é o BBB. Para além da mirada superficial, quem sabe permitiremos que este excesso de realidade gere em nós uma grande inquietação, ilumine as nossas consciências, antes que sejamos, todos, mandados para o paredão. 


 


Sandra B.


 


imagem: "Realidad" - Disponível em www.margencero.com


 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Mágoa


Há momentos

em que afloras:

lembrança líquida.

 

Gotejas alcalino

desde os mares

oblíquos:

portal que se

abre para dantes.             

 

Pisco os olhos e                                   

já não és mais que

(m)água.

 

Sandra B.