sábado, 11 de junho de 2005

Memórias de mis putas tristes

Rating:★★★★★
Category:Books
Genre: Literature & Fiction
Author:Gabriel Garcia Márquez
As putas tristes de Gabriel

A tradução da novela de Gabriel Garcia Márquez – Memórias de mis putas tristes - será lançada no Brasil, pela Record, neste mês de junho, e já é um best seller. Mesmo a edição original, em espanhol, bateu recordes de venda nas livrarias brasileiras e é preciso lembrar que ler Garcia Márquez em seu próprio idioma consiste em prazer dobrado.
Há mais de dez anos o escritor colombiano não publicava uma novela, inclusive, cogitou-se que a obra seria memorialista, porém, mais uma vez Gabriel Garcia Márquez revela a maestria de seu estilo narrativo, que praticamente reinventou a literatura colombiana, nos brindando com uma história que cativa nosso imaginário e captura os nossos sentidos, tanto quanto os inesquecíveis “Cem anos de Solidão” e “Ninguém escreve ao coronel” – obras-primas da Literatura.
“Memória de mis putas tristes” narra a história de um homem de noventa anos que recorda os seus dias mais gloriosos, no auge de sua exuberância sexual. A personagem, um homem apaixonado por leitura e música, é periodista do “Diário de La Paz” e resolve encerrar sua entrega aos prazeres carnais festejando seu aniversário de 90 anos de uma forma insólita: através de uma nova experiência amorosa: “Nesse ano, em que completo noventa anos, desejo presentear-me com uma noite de amor desenfreado com uma adolescente virgem” *
Ao se dar esse presente, um corpo feminino cuja beleza não atingiu a maturidade, ao apropriar-se da pureza desse corpo, ele estaria oferecendo uma espécie de troféu à própria masculinidade. Assim, num bordel barato do caribe colombiano ele conhece Delgadina, menina de catorze anos que está se iniciando na profissão.
Entre os dois vão se criando laços e, noite após noite, o periodista nonagenário visita o bordel, onde passa suas madrugadas velando o sono da menina, cantando e contando a ela histórias como “O Pequeno Príncipe” e “As mil e uma noites”.
Gabriel Garcia Márquez cria uma atmosfera de ternura e desejo mesclados à desesperança da velhice e é impossível não relembrar os cenários descritos pelo escritor japonês Yasunari Kawabata no belíssimo romance “ A Casa das belas adormecidas”, livro que também lança um olhar literário sobre a sexualidade dos anciãos.
A exaltação amorosa que vive com Delgadina começa a se traduzir nos artigos que publica semanalmente, transformando-os em pungentes cartas de amor que começam a ser lidas na rádio local.
A narrativa tem momentos de grande intensidade poética: “Sempre acreditara que morrer de amor não fosse mais do que uma licença poética. Porém, aquela tarde, regressando à sua casa, onde não o esperavam nem o gato e nem a menina, comprovou que não apenas era possível morrer de amor, mas que ele mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor.” **
A leitura de “Memória de mis putas tristes” traz de volta as personagens apaixonantes do escritor, a sua escritura vigorosa, que demonstra o tratamento cuidadoso que o autor dá à expressão narrativa, usando-a como instrumento de sedução do leitor.


Sandra B.

*traduzido por mim
** idem

quinta-feira, 9 de junho de 2005

A vingança dos objetos - Canto VII


já foi sangue

a saudade e

vinho e

carne maturada

já foi tango

e fome

 

hoje é

esse retrato

desencarnado que

não me vê

 

Sandra B.

 

 

 

*imagem: Accords d'amants, obra de Maria Amaral, 2001.

sábado, 4 de junho de 2005

Ganchos


eu adoro o mar e gosto de me imaginar barco...

Ganchos é uma aldeia de pescadores, distante uns 25km de Florianópolis, no município Gov. Celso Ramos. As fotografias foram feitas em março, nas minhas férias. (ai que saudade!)

Releitura*


Guardo
na palma
da mão
o secreto texto;
tocando-me,
releio
em minha pele
a tua história.
 
Sandra B.
 
*Coletânea Poestesia, 2003.
Imagem: Tatouage I de Maria Amaral; 2001.
 
 

sexta-feira, 3 de junho de 2005

A vingança dos objetos - outro canto



não um poema


que te cantasse


árvore pedra sino


antes um poema


que calasse


os rubis


na tua boca


de silêncio


e fome


um poema


que se negasse


 


Sandra B.

Ana Jansen

Rating:★★★★★
Category:Books
Genre: Romance
Author:Rita Ribeiro
Ana: mito e memória

Ana Joaquina Jansen Pereira. Esse é um nome desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, porque, quando se estuda e se ensina História do Brasil o foco se concentra, sobretudo, na história dos homens brasileiros, a história oficial que cabe na grade curricular. Mesmo os inúmeros livros, publicados a partir da década de 90, abordando a história das mulheres no Brasil têm a circulação restrita aos meios acadêmicos.
Por outro lado, a Literatura tem dado uma grande contribuição para que algumas figuras femininas legendárias se tornem mais conhecidas dos brasileiros, e foi através do romance da escritora maranhense Rita Ribeiro* que conheci Ana Jansen.
Ana Jansen viveu durante o reinado de D. Pedro II e Rita Ribeiro debruçou-se sobre imensas pilhas de documentos e teses que analisam essa época para construir uma ficção calcada num impecável pano de fundo histórico. Essa Ana, mulher plena de si mesma, tornou-se conhecida como Rainha do Norte e do Nordeste do Brasil – marcando sua presença nos cenários sócio-políticos maranhenses que, na época, era uma das províncias mais importantes do império.
Em torno da personalidade poderosa e do comportamento arrojado de Ana Jansen foi elaborado todo um folclore, que Rita Ribeiro utiliza habilmente na construção de sua trama. Quem foi Ana Joaquina Jansen Pereira? Rita entrega a narrativa à voz de um poeta - e quem mais cantaria tamanha musa?
Na noite quente de São Luís passeia um poeta e sua poesia evoca a imagem de uma mulher que se sabia inteira e que extraía dessa sublime consciência de sua integridade o seu poder, exercitado em todas as outras áreas de sua vida. O poeta se infiltra no espaço mágico da memória e tece aos nossos olhos o fantasma presentificado de Ana: a bela mulher trajada em negro, o decote audacioso revelando o adereço de ouro e diamante: seu brasão rebrilhando entre os seios.
O poeta conta a história de uma lutadora arrojada que, nascida rica, ficou na miséria, mas, firmada em seu orgulho e força, acabou se transformando no maior líder do Partido Liberal (que fazia oposição ao Império), sendo considerada, muitas vezes, como um inimigo inexorável. “...mulher apaixonada que nunca abdicou de viver plenamente sua afetividade e sua sexualidade...Maldita ou abençoada por todos os deuses? Carismática ou despótica?
Enquanto mulher e leitora, o que mais me atraiu na figura de Ana Jansen é o fato transparente de que para assumir uma posição relevante no contexto político e social de sua época ela não admitiu que sua vida fosse cindida em compartimentos estanques, comportamento padrão entre as mulheres contemporâneas, particularmente aquelas que alcançam êxito em suas carreiras. Não havia uma Ana dividida em função dos papéis sociais que desempenhava, antes, havia uma mulher que se impunha como tal em tudo que fazia, não aceitando ser paráfrase de si mesma, por isso Ana Jansen foi uma mulher de poder.
Ao desvendar Ana, me lembrei do poema de Edmilson Pereira: “A mãe que nos teve /é nossa filha/(...) ela pôs nosso umbigo /sob as rosas/ na porteira/ A beleza em nós é forte.”Ana se identifica com um inquietante arquétipo feminino: o das mulheres que se guiam pela paixão, cuja sensualidade seduz e apavora aqueles que convivem com elas.
Nas palavras de José Louzeiro, que apresenta o romance, Ana Jansen se mostra como a rainha que “...em nome do poder e da glória, negociou um lado da alma com Eros e o outro com Satanás.” O último representando o ódio e a morte, que também a seguiram de perto.
Eros e Tanatos compondo uma sinfonia entranhada na pele - hoje feita de letras e memória, de uma brasileira admirável.

Sandra B.

*Ana Jansen, romance de Ana Ribeiro. Editora Record, 2000.



quinta-feira, 2 de junho de 2005

A vingança dos objetos


Canto I

 

alforriei

os teus canários

primeiro

depois

soltei os laços

do vestido

voei.

 

Sandra B.

 

 

 

 

 

                                                                                                              *imagem: escultura de Juan Tejerina