sábado, 2 de abril de 2005

poema que pergunta:


Se fomos


para o amor


talhados,


por quê


voltamos


amortalhados?


 


Sandra R. S. Baldessin


imagem: "Mujer llorando" - quadro de ramiro Sacco. Disponível em: www.conelarte.com/.../ Ramiro_Sacco0404.htm

Estrada Bonita




Fotografias feitas por mim, exceto as duas nas quais apareço. O local fica próximo à cidade de Joinville, num atalho que se toma a partir da BR 101. Aproximadamente 8 km que, de preferência, percorremos a pé, desfrutando a exuberância da natureza. Nas casas existentes no local, os descendentes dos antigos colonos comercializam cucas, geléias, artesanato, licores, mudas de plantas. Uma festa sensorial.

quarta-feira, 30 de março de 2005

desencontrados ventos

Rating:★★★★★
Category:Books
Genre: Literature & Fiction
Author:Adair Carvalhais Jr.
O livro de poemas, levei-o comigo nas férias, atendendo o pedido do verso: “esperarei que te/ dispas/ das pressas do mundo” e não há dúvida que a poesia de Adair Carvalhais Jr. merece o mergulho calmo e profundo do leitor. Uma poética sensorial e plena de uma sensualidade que vai se desvendando nas entrelinhas, nas imagens táteis que o poeta cria e que nos penetram pelos ouvidos, olhos, pelos poros. Há angústias e a nítida cumplicidade com a angústia maior da escrita; há beleza, desejo e saudade, ainda que o poeta a renegue: “a saudade é tão inútil”.
Pergunto-me o que mais me cativou na poesia de Adair. Não há respostas fáceis para essa questão. Talvez, primeiramente, por oferecer a ilusão de que o poema “nasceu pronto”, fato que a leitura mais atenta logo desmente: a poética de Adair é habilmente burilada, poética-processo onde texto e autor vão se amalgamando e, dessa “massa” revelam-se as palavras feitas de carne, a carne do poeta: “meu corpo bate/ e volta contra as arestas do/ dia escurece e viver me/ devolve apenas restos/ gastos boiando em meus/ olhos.” Por emprestar-se ao poema, Adair constata: “não me encontro por/ inteiro partes/ desencontradas” ou: “quem é você afinal que/ me rouba assim/ de mim eu/ sei você sabe o resto/ fica/ com o universo”
Esse eu-poético fragmentado, inteiro em partes, faz incisões precisas nas palavras, nos versos, mergulhando o leitor nos abismos líquidos da sua poesia: “à noite dorme/ na liquidez do meu/ olhar os peixes/ pálidos/ de solidão” Assim, chegamos ao outro motivo pelo qual me deixei enredar: a poesia de Adair é plena de correntezas: “mergulhei nas/ correntezas de seu/ desejo esta/ noite”; mares de dentro: “minhas ondas vão/ e vêm”; lágrimas: “mas queria algo tão eterno/ quanto as lágrimas que emanam/ dos meus olhos e se evaporam/ nas minhas mãos”. Os versos criam cenários líquidos lançando mão de suores, poços e chuvas, de tal forma que, na poesia de Adair até a poeira ganha o dom de inundar: “dá-me bom/ dia a poeira/.../ exausto de limpá-la deixo-a/ inundar meus cantos/.../arrastar-me/ enfim”
A qualidade líquida, e, portanto envolvente, da poesia de Adair, se revela ainda na ausência de pontuação; a maioria dos poemas se entrega a todas as possibilidades: não aceita os limites impostos pelos pontos finais, não quer a pausa das vírgulas, não interroga, não pasma, apenas, delicadamente constata: “mas eu te quis como/ o peixe busca redes” A delicadeza surge no emprego inteligente das minúsculas, que, aliado ao uso parcimonioso da pontuação, reforça a metáfora das palavras flutuantes.
Em “desencontrados ventos” relemos nossa mais palpável solidão. Não sei, não sei, mas haverá solidão mais concreta do que a cantada nesses versos? “Houve um tempo/ em que minha única companhia/ era o silêncio do mato/ crescendo/ no lote vago.” Uma solidão que possui o poeta e que ele possui, ciumentamente: “minha dor posso/ dividir minhas lágrimas derramar/ nas suas mãos mas esta/ solidão é toda/ minha”. A solidão é “toda” traduzida na ânsia de vivenciá-la, mais do que descrevê-la, na permissão para que ela o “arrombe de vertigens”, levando-o à catarse final - o verso: “enlouquecido por tua/ ausência solto aos ventos/ intempestivos sou carne pura aos pés/ da noite”
Não posso definir o que me cativou na poesia de Adair carvalhais Jr. além do poder de cinzelar a palavra-prima - a pedra, e esculpir nela o que lá já estava, mas, ninguém mais viu.

Sandra R. S. Baldessin

desencontrados ventos (2002). Editora Outras Letras

sábado, 26 de março de 2005

Desfeitos um para o outro*


Escreverei versos quando você partir. Lembro que perguntou-me se algum dia minha boca se arrependerá dos beijos com que nos devoramos. Não respondi. Você não pergunta para obter respostas e eu sempre respondo, muda, tudo o que você teme indagar.


Hoje as palavras não me interessam. Vê se cala essa boca e usa a língua como chave. É assim que se constrói um amor verdadeiro: com Astor Piazzola como fundo musical e gestos bailarinos se desprendendo dos corpos entrelaçados.


Talvez eu queime incenso, pode ser que eu dance; quem sabe, enfeitarei os cabelos com uma rosa vermelha, enterrando os seus espinhos na fronte. Certamente escreverei versos quando você partir.


Hoje, não. Sente-se aqui. Façamos o inventário da nossa história. Eu contabilizo os contras. Você, com esses olhos cheios de adeus, vai tentar me convencer que estou errada. E não venha me dizer que os nossos signos combinam, que gostamos e desgostamos das mesmas coisas, que eu nunca perco a classe, mesmo bêbada. Também não resolve ficar me acariciando as coxas enquanto fala.


Não diga que com você eu poderia enfrentar o destino com dinheiro no bolso. Prefiro contrair outros tipos de dúvidas. Não me ofereça a proteção da casa própria, nem me garanta descendentes saudáveis, espécimes pós-modernos aptos a  sobreviverem em nosso paraíso individualista.


Seja desleal e acrescente à sua lista de prós as lembranças da infância. O tempo em que empinávamos pipas, lado a lado, no mesmo campinho. Havia resgate para os nossos sonhos naquele azul todo se alastrando pelos nossos olhares. A felicidade sem ideologia de quando temos dez anos e ainda não visitamos as regiões do desejo. O tempo em que nunca ouvíramos falar em Marx, Baudelaire, Simone Weil e a nossa dor não aparecia nas fotografias.


 Não tenta colocar na balança essa entidade que criamos quando amalgamados além das palavras, esse estranho que se molda a partir da metamorfose dos nossos corpos. Esse animal, herdeiro da nossa luxúria, costurado às nossas peles, tecido de rendas líquidas.


Sobretudo, se esforce para não demonstrar o quanto você acredita que me ama; eu nego a você o prazer de me salvar da solidão. Evite despir-me procurando aquela menina que colecionava pedras, a mesma que se escreveu no seu corpo, tornando-o  guardião do selo de carne das tantas mulheres partejadas pós-você.


Desfeitos um para o outro, recuso-me a enumerar razões para dizer-lhe que se incorpore à chuva e saia pela janela. Tenho todas as incertezas que preciso para viver. Escreverei versos quando você partir.


 


Sandra R. S. Baldessin


 


*fragmento da novela "Cúmplices da flor", inédita.


Imagem: gif de Lady Utopia.


 


 

Ladainha de um fundo de mar

http://elpoeta.multiply.com
O belo poema de Eliana Mora é para ser lido e guardado nas entranhas.

sexta-feira, 25 de março de 2005

Pés em Paz

Rating:★★★★★
Category:Other
Dentre as tantas coisas deliciosas que vi, bebi, comi, toquei e me deixei tocar nessa viagem, uma foi muito especial.
Na estrada, no meio do nada, na Br 101, lá nos confins de Santa Catarina, eu vi uma placa anunciando o "Pés em Paz" , supostamente um spa dos pés. Depois de vencer a resistência do maridão que, com toda sobriedade, tentou me convencer que eu acabaria caindo numa "casa de tolerância", nós fomos atrás do tal endereço. Uma casa simples de madeira onde um oriental de meia idade oferece a um custo irrisório uma deliciosa sessão de massagem. Hum, tiradas as sandálias, mergulhei os pés num banho de flores de camomila, em seguida, fui incentivada a pisar numas pedrinhas moídas, aquecidas. Depois, os pés foram conhecer o gosto de uma espécie de barro cheirando a sândalo. Mais banho de camomila e, no final, uma massagem com óleos aromáticos misturado com óleo de sucuri, segundo o oriental, cujas mãos são um mistério, de tão... tão... Bem, meus pés ainda não descobriram a palavra que defina a sensação do toque dessas mãos.

PS. eu sugeri a ele uma franquia (rsrs)



linguágil - inspirado em Manoel de Barros

Não essa língua

que desarticula

a ternura,

que violenta

a sintaxe

materna;

anti-língua

científica

que não (se) diz

o mito.

 

Antes

uma língua de

beijar-lamber

suposição

do corpo,

abraço e cilada:

ágil

linguagem.

 

 

Sandra R. S. Baldessin