Se fomos
para o amor
talhados,
por quê
voltamos
amortalhados?
Sandra R. S. Baldessin
imagem: "Mujer llorando" - quadro de ramiro Sacco. Disponível em: www.conelarte.com/.../ Ramiro_Sacco0404.htm
Se fomos
para o amor
talhados,
por quê
voltamos
amortalhados?
Sandra R. S. Baldessin
imagem: "Mujer llorando" - quadro de ramiro Sacco. Disponível em: www.conelarte.com/.../ Ramiro_Sacco0404.htm
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Books |
| Genre: | Literature & Fiction |
| Author: | Adair Carvalhais Jr. |
Escreverei versos quando você partir. Lembro que perguntou-me se algum dia minha boca se arrependerá dos beijos com que nos devoramos. Não respondi. Você não pergunta para obter respostas e eu sempre respondo, muda, tudo o que você teme indagar.
Hoje as palavras não me interessam. Vê se cala essa boca e usa a língua como chave. É assim que se constrói um amor verdadeiro: com Astor Piazzola como fundo musical e gestos bailarinos se desprendendo dos corpos entrelaçados.
Talvez eu queime incenso, pode ser que eu dance; quem sabe, enfeitarei os cabelos com uma rosa vermelha, enterrando os seus espinhos na fronte. Certamente escreverei versos quando você partir.
Hoje, não. Sente-se aqui. Façamos o inventário da nossa história. Eu contabilizo os contras. Você, com esses olhos cheios de adeus, vai tentar me convencer que estou errada. E não venha me dizer que os nossos signos combinam, que gostamos e desgostamos das mesmas coisas, que eu nunca perco a classe, mesmo bêbada. Também não resolve ficar me acariciando as coxas enquanto fala.
Não diga que com você eu poderia enfrentar o destino com dinheiro no bolso. Prefiro contrair outros tipos de dúvidas. Não me ofereça a proteção da casa própria, nem me garanta descendentes saudáveis, espécimes pós-modernos aptos a sobreviverem em nosso paraíso individualista.
Seja desleal e acrescente à sua lista de prós as lembranças da infância. O tempo em que empinávamos pipas, lado a lado, no mesmo campinho. Havia resgate para os nossos sonhos naquele azul todo se alastrando pelos nossos olhares. A felicidade sem ideologia de quando temos dez anos e ainda não visitamos as regiões do desejo. O tempo em que nunca ouvíramos falar em Marx, Baudelaire, Simone Weil e a nossa dor não aparecia nas fotografias.
Não tenta colocar na balança essa entidade que criamos quando amalgamados além das palavras, esse estranho que se molda a partir da metamorfose dos nossos corpos. Esse animal, herdeiro da nossa luxúria, costurado às nossas peles, tecido de rendas líquidas.
Sobretudo, se esforce para não demonstrar o quanto você acredita que me ama; eu nego a você o prazer de me salvar da solidão. Evite despir-me procurando aquela menina que colecionava pedras, a mesma que se escreveu no seu corpo, tornando-o guardião do selo de carne das tantas mulheres partejadas pós-você.
Desfeitos um para o outro, recuso-me a enumerar razões para dizer-lhe que se incorpore à chuva e saia pela janela. Tenho todas as incertezas que preciso para viver. Escreverei versos quando você partir.
Sandra R. S. Baldessin
*fragmento da novela "Cúmplices da flor", inédita.
Imagem: gif de Lady Utopia.
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Other |
Não essa língua
que desarticula
a ternura,
que violenta
a sintaxe
materna;
anti-língua
científica
que não (se) diz
o mito.
Antes
uma língua de
beijar-lamber
suposição
do corpo,
abraço e cilada:
ágil
linguagem.
Sandra R. S. Baldessin