domingo, 12 de dezembro de 2004

ABRALI - Entreletras


http://www.abrali.com/015coluna_direita/sandra_baldessin/eliane_potiguara.html
Este mês, em minha coluna Entreletras, no portal da Associação Brasileira de Literatura, entrevisto a escritora indígena Eliane Potiguara, cuja história de vida vale a pena conferir, clicando na biografia.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Momentos Especiais

Rating:★★★★★
Category:Other
“Paiê, ela existe?”

Saí para caminhar no Lago Azul, hábito diário, mesmo sob um chuvisqueiro leve que prometia transformar-se em uma chuvarada de verdade. Embora já passasse das dezoito horas, o espaço do Lago estava ocupado pela criançada e seus pais, tios, amigos, que foram participar da chegada do Papai Noel; vindos dos bairros mais distantes da cidade, estiveram participando de atividades recreativas o dia todo. Caminhando mesmo, apenas eu e um outro rapaz que também não dá folga para as pernas nem aos domingos.
Picolé e algodão doce para todo lado, balões coloridos e, principalmente, as feições encantadas das crianças, provocaram-me uma sensação de nostalgia, trazendo à lembrança outras épocas, outros natais. Esse tipo de sentimento é muito comum e incentivado nesse período do ano; refletindo sobre essas coisas, remexendo o baú do imaginário, continuei meu exercício, deixando o pensamento vagar.
Chegando em frente ao Centro Cultural, havia uma outra movimentação, bem diferente daquela observada no lado oposto do Lago Azul, onde se concentravam as crianças que vieram aguardar a chegada de Papai Noel. Provavelmente, haveria uma apresentação de balé e, dos automóveis estacionados no local, desciam as crianças e seus pais. Lindas meninas, com suas fantasias caprichadas.
Próximo, estava um homem arriado na calçada, cercado de um grupo formado por três garotas, com idades, talvez, entre os 6 e os 9 anos; desejei que ele não estivesse tão bêbado a ponto de não conseguir reconduzir as meninas para casa.
De repente, desce de um automóvel uma fada. Uma visão vestida de tule branco, luvas de cetim, minúsculas flores douradas bordadas na saia do vestido e uma coroazinha de pedras coloridas enfeitando a cabeça mimosa; nas mãos, a varinha de condão.
A menina mais nova, cujo pai estatelado na calçada estava alheio a tudo, se pôs a perguntar, a voz frenética de criança emocionada: “Paiê... paiê, ela existe?” Dava tapinhas no ombro do homem, puxava a camiseta, tentando chamar sua atenção: “Ela é ‘qui nem’ o Papai Noel que existe ‘mais num’ existe, hem paiê ?” Perguntava, apontando para a garota com fantasia de fada.
A fada caminhava assistida pelo cortejo familiar, enquanto a menina gritava sua pergunta repetidamente aos ouvidos surdos do pai. Não sei se foi essa minha alma de poeta que vê significado em tudo, mas a cena e, sobretudo, a frase “existe mas não existe”, desvendaram aos meus olhos esses dois brasis tão diferentes que um deles parece ao outro que não existe.
Seguindo o impulso, sorri para a fada e sua mãe ao mesmo tempo que pegava a mão melada de sorvete da menininha e lhe explicava que sim, a outra garota era tão real quanto ela; temi o gesto, que felizmente não veio, de recusa e afastamento. As mãos das meninas se tocaram, a varinha de condão trocou de mãos, por alguns segundos.
Deixando as duas para trás, continuei o meu caminho, pensando nas tantas coisas que existem mas não existem, como o Papai Noel, as fadas, os objetos mágicos das estórias fantásticas... Lembrei-me das palavras do poeta mexicano, Octavio Paz: “Em minha utopia política nem todos são felizes, porém todos são responsáveis”. Esta sim, é uma varinha de condão possível, viável: a responsabilidade social.
Lembrei-me, ainda, de uma brincadeira dos meus tempos de garota, que retrata, em sua simplicidade, a história desigual das crianças brasileiras: “Eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré... eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, dessi...”
Para quem é aprendiz, a vida está cheia de lições.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Aprendiz de Alice


Foi caminhando em direção à música. Não... não fora a música que primeiro o atraíra e sim o perfume. Os aromas de flores e ervas mesclados. Ladeou o canteiro de cravíneas, aproximando-se cada vez mais da casa de onde fluíam sons de risadas e conversas. Aquelas vozes! Há quanto tempo não as ouvia.
Sabia que ao atravessar a soleira da porta Alice viria ao seu encontro. Primeiro,chegaria o seu sorriso, a boca de tangerina, que ele se apressaria em devorar. Imediatamente ela colocaria em suas mãos alguma bebida gelada, os olhos pregados nos dele, tanto que ele experimentaria uma vertigem verde, como se matas e horizontes o penetrassem pela fenda do olhar.
O salão iluminado, o assoalho de tábuas compridas e brilhantes, enceradas até à exaustão, os vasos de cristal. Que cenário seria este?
Não se deteve na pergunta pois Alice já o chamava para dançar; um bolero... Por qual fresta do passado escapara aquela canção? Segurando as mãos dela viu de relance o anel de noivado, a esmeralda solitária que lhe oferecera há tantos anos atrás. Impossível!
O calor do corpo de Alice interrompeu suas reflexões. Meu Deus! Com que paixão ele a amava. A condição de noivos permitia que ele a abraçasse mais ousadamente, o seu próprio corpo submetido à tensão de um desejo quase insuportável. E Alice, plena da música, o rosto colado ao seu. Inquieta!
Ele observava, perplexo, o desfile dos rostos familiares das pessoas com as quais convivera por tantos anos: Tia Inácia, a solteirona que nunca abrira mão dos vestidos enfeitados e juvenis; Aluísio, com seus pulmões fracos, jamais tirava o casaco; os gêmeos, seus irmãos mais velhos; repentinamente, avistou-a sentada na poltrona, o eterno xale cobrindo as pernas, o olhar incisivo, fixo nele. A bisavó de Alice, D. Conceição. Comia canapés, mastigando-os devagarinho, como fazem os velhos.
“Não se case com ela. Alice possui o sangue rascante como vinho...o peito inquieto; ela ainda não sabe disso, apenas pressente sua própria fúria.”
Conselhos vãos. Quantos anos depois lembrara-se deles? Sem arrependimento.
Fora maravilhoso perder as esperanças ao lado dela. Fiel ao seus próprios anseios, ela o assustou desde a noite de núpcias quando, ao invés de dar, tomou.
A natureza, sábia, negou-lhe os filhos que ele tanto desejava, mais como uma forma de torná-la mais sua. Sua? Os cristais tilintando, a esmeralda brilhando no dedo delicado.
Demorou a entender que havia mais Alices do que as que poderia compreender, mas amou-as, todas elas, com uma ternura plena de renúncia. Dormia com uma, acordava com outra. Dormindo, ainda não era dele, embora o corpo abandonado ficasse à sua mercê por algumas horas. Ele mesmo não adormecia sem prendê-la (o seu corpo inanimado), agarrando-a pela cintura sempre esguia.
A primeira vez que ela cortou os cabelos bem curtos acreditou que finalmente partiria. Temeu, sabendo que a presença de tal ausência o sufocaria, implorou que ficasse, não precisava explicar mais nada, nunca mais ele faria perguntas, que mentisse, que fosse infiel, mas pelo amor de Deus, não levasse a boca de tangerina, o jeito de virar o pescoço, a risada de menina, não levasse para longe dele a vertigem verde do seu olhar. Ela apenas sorriu, abrindo braços e pernas para agasalhá-lo e acabar com seus medos. Conselhos vãos.
A música e o perfume. As vozes rompendo as barreiras do dia de ontem. Longos os anos das Alices, umas sucedendo-se às outras, procissão interminável. Amou nela todas as mulheres que poderiam tê-lo feito feliz, mas não com o tipo de felicidade desesperada que ela lhe ofereceu.
O aroma das flores mesclado com ervas. A esmeralda, brilhando ainda, nos dedos que se fizeram frágeis e trêmulos; nunca estranhou os cabelos brancos dela, a teia de rugas finas que se formou em torno dos olhos verdes, era mais uma Alice para adorar. Agora sabia, com certeza, que não lhe seria dado compreendê-la.
Morta, desejou-a com uma saudade infinita. Levou consigo a esmeralda para o aconchego da terra. Que cenário seria este?

Sandra R. S. Baldessin


* Esse conto foi um dos vencedores do Mapa Cultural Paulista - Categoria Literatura/Contos, 2002. Consta de uma antologia publicada pela Editora Universitária de Lisboa.
* imagem: obra do artista mexicano Ariel Pañeda Macías; disponível em www.urocirugia.com/cultura.htm

domingo, 5 de dezembro de 2004

Concerto de Contrabaixos

Rating:★★★★★
Category:Music
Genre: Other
Artist:Sexteto Tropical
Meu amigo Jaime tem uma coluna diária no Jornal Cidade, aliás, ele deveria entrar para o Livro dos Recordes - uma crônica por dia durante mais de 14 anos, o cara é fera. O nome da coluna é TOQUE RÁPIDO e partilho com vocês a crônica de hoje, sobre um concerto que assistimos juntos na última sexta-feira.

Sexteto de Contrabaixos

Seis músicos em cena com seis contrabaixos. Nada mais inusitado.O contrabaixo é um instrumento que o corpo toca e que também toca o corpo como num abraço. Abraço musical. O corpo gigante do contrabaixo e o corpo musical do contrabaixista.

Tivemos sexta-feira, no Ginástico, durante o 26º Concerto do Advento, a oportunidade raríssima de assistir a um concerto de contrabaixos.

É claro que um acontecimento desses é mais do que musical. Porque o contrabaixo, pelo seu tamanho avantajado, propõe uma dança, uma performance, uma teatralidade que vai além de um tocar tradicional. E isso se torna possível quando não se está em uma orquestra sinfônica, em que o contrabaixo é mais um em cena.

Seis contrabaixos e seis contrabaixistas, todos exímios músicos, proporcionam um espetáculo sonoro extraordinário. No começo, os contrabaixos parecem tímidos, discretos, não soltam a sua voz de dentro de suas cordas vocais-musicais. De repente, eles nos tomam por completo. E aí entramos no clima um tanto surreal de seis contrabaixistas e seis contrabaixos dialogando com o nosso prazer sensorial, de ver, de ouvir, de perceber algo de desconcertante nos tirando da mesmice e nos colocando em um espaço muito especial, o mundo dos contrabaixos, aí já não há mais resistência nenhuma.

O francês Tibo Delor, radicado no Brasil já há vários anos, formou em 2002 a Orquestra de Contrabaixos Tropical, que é o sexteto, e a partir daí, seis músicos

experientes, que conhecem profundamente a sonoridade de diversos instrumentos, fizeram imersão total nos contrabaixos, e conseguiram revelar para a nossa platéia e as demais que o contrabaixo é um instrumento mais rico em timbres e sonoridades do que poderíamos imaginar.

É possível extrair do contrabaixo os sons mais inesperados. E os músicos: Tibo, Beto Vianna, a quem já conheço há bastante tempo, Zé Alexandre Carvalho, Clóvis Camargo, Gustavo D`Ippólito e Neimar Dias, com humor, expressões de cômicos e de mímicos, nos levaram pelos mais diversos meandros da música e dos sons, no espetáculo “A Nota Filosofal”.

Em “Motos”, eles transformam os seus instrumentos em motocicletas, e viajam nelas, e os contrabaixos emitem ruídos de motor e de buzinas, numa disputa sonora incrível.

“Casa Forte”, de Edu Lobo, em arranjo de Beto Vianna, é um dos momentos mais expressivos do espetáculo, que teve muitos outros momentos vibrantes.

Eu estava totalmente imerso naquele mar de contrabaixos, quando a Sandra, ao meu lado, me despertou: -Olha aquela mulher de bobes. “Uma montanha de bobes”, segundo uma garota que também estava ali perto.

Perfeito. Num concerto de contrabaixos, nada mais normal do que uma mulher com muitos bobes na cabeça. Você acha normal um concerto de contrabaixos? A quantos você já foi até hoje?
Imperdível.

____________________________________________
Jaime Leitão é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação.

TOQUE


Se me tocas,
toco o tempo materializado,
o sal abstrato
de palavras obscuras.

Se me tocas,
desencadeias a fúria
das estrelas
e a lua renasce,
virgem,
no céu negro da tua íris.

Se me tocas,
as flores desabrocham,
o mato cresce,
a terra produz seu fruto,
a vida se faz nova.

Se me tocas,
me torno a mulher que sou:
pão, vinho, azeite e mel;
transubstanciação
da natureza!

Sandra R. S. Baldessin

*imagem disponível em: www.univision.com.es/rociodiluna

sábado, 27 de novembro de 2004

Poema para esperar dezembro


DEZEMBRO

A carne de dezembro tem
cheiro de menina-moça:
concentra-se no ar,
Intoxicante, inebriante, recendendo
à fruta temporã.
Dezembro possui a cor fugaz
dos desejos de verão:
transitórios, efêmeros, matizando
a atmosfera circundante.
Não fala dezembro, cicia
com voz de amante, rumoreja
como os rios, o vento, a criança
no berço, a velha rezando o terço.
Dezembro recicla em sua usina
trezentos e sessenta e cinco dias,
intercepta a rotina, o tédio,
disseminando ao seu redor
o incenso da esperança.


Sandra R. S. Baldessin

Foto: Amante do Sol - Maresias/SP - setembro/2004


domingo, 14 de novembro de 2004

Maxine *


Escreve o meu nome direito, vai. É Ma xi ne, deixa ver se escreveu certinho, isso, Maxine. Pra falar tem que ser assim: mac cine. O sobrenome não tem que escrever, não. É da silva, as minina aqui da rua é quase tudo da silva, tem lorraine, michele, suellen, mas se for ver no registro do cartório é tudo maria aparecida. Eu não. Olhaí meu RG, viu? É Maxine.
Minha mãe, coitada, que casou virgem, deu pra filha menor o nome da puta de um filme que ela gostou, coitada, ficou com pena. De mim não tinha pena, se soubesse que eu caí na vida, minha mãe, coitada. Teve treze filhos: tudo jão, zé, Cida, tudo do Silva, o Silva que levou de brinde o cabacinho dela, além de conseguir alguém pra lavar suas cuecas de graça. Empregada, costureira e o que mais ele precisasse.
Viu que esse nome serviu de alguma coisa, não precisei inventar outro na hora de entrar na profissão. Mãezinha acertou no nome, acertou na receita também, que você pode olhar bem, não vai ver outra gostosa como eu por aqui, não. É mistura de italiano com caboclo, que minha mãe, coitada, era filha de caboclo e meu pai veio de gente italiana e portuguesa; italiana era minha avó Adolorata. Essa sabia odiar! Odiava mãezinha que enfeitiçou o filho querido dela com seu cheiro de terra molhada.
Foi dela que me vieram esses olhos clarinhos. A cintura fina e as coxas grossas vieram de mãezinha, coitada. O olhar não faz diferença na carreira de puta, mas as coxas, essas ajudam. Já o vô, Joaquim da Silva, gostava de nós tudo, mas não mandava nada, que o pouco dinheiro que tinha era dela, da nonna. Nonna dos outros netos, pra ela a gente fedia, era tudo vira-lata, cria de cachorro de raça com cadela de rua, mas minha mãe, coitada, casou virgem.
Não pense que estou na vida por falta de opção, como se diz por aí; eu tenho segundo grau, podia ser balconista, auxiliar de alguma coisa, podia. Podia até casar com um sujeito que depois de uns anos ia virar bêbado que nem meu pai e acabava me comendo no escuro e de graça. Isso é que não.
Tá sentindo meu perfume? Acha que balconista podia andar por aí com cheiro de mulher francesa? E depois, meu destino veio selado nesse nome: Maxine. No começo foi duro, pode escrever aí, eu tinha 18 anos e acreditava no amor. Achava que amar era quando a calcinha ficava molhada toda vez que o Nelson, filho da freguesa de roupa lavada da minha mãe, me abraçava e enfiava a língua na minha boca.
Tesão, só tenho por dinheiro. O sujeito pode ser velho, novo, barrigudo, careca, pode feder, pode me pedir a coisa mais estranha, e pode crer que pedem. Pagou, leva. Lembro da mãe, coitada, dizendo que a Maxine do filme falou para o galã: Eu não faço amor, faço dinheiro. Ela achava romântico isso, porque era mentira, porque a tal Maxine tava apaixonada pelo cara.
Mas, não essa Maxine, que assistiu de camarote as porradas que a mãezinha levava; culpada, culpada de ter acreditado no amor. Mas ela tá morta, que descanse em paz, coitada. E a avó Adolorata continua viva, que força não tem o ódio, me diz? O senhor tem certeza que o programa, a reportagem passa lá no interior de São Paulo também? Porque eu quero que ela veja a vira-lata na televisão. Vai, filma bem as minhas coxas e a minha cara lavada, que eu tirei a maquiagem pra ela me reconhecer, ela gosta desses programas de repórter.
O melhor homem que tive até hoje, e já tô na rua faz uns 15 anos, foi uma mulher. Eu vivi com ela uns tempos, dava aula na universidade e tinha dois filhos, tudo homem feito. O único homem que me amou e cuidou de mim. Quer saber como eu fiquei sabendo que ela tava morta? Num jornal velho, jornal de embrulhar verdura na feira, jornal do mês retrasado. Eu pensei que ela tivesse me abandonado, mas mataram ela num assalto. Foi quando eu descobri que ainda não desaprendi de vez a amar...
Não tenho mais nada pra contar, a não ser o dinheiro que o senhor vai me pagar pela entrevista, ou tá pensando que vou mostrar minha cara na televisão de graça?

Sandra R. S. Baldessin


* Este conto integra a coletânea "Todas elas" - inédita.
** Fotografia de quadro do artista Toulouse Lautrec; captada em: www.hstech.org/.../ setdsn/museum/met_photos.htm